quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Capitalismo, socialismo e comunismo (II)


Vou falar um pouco sobre tecnologia pra falar de tempo e liberdade. Marx me faz pensar em respirar ar novo e em liberdade mesmo tocando num assunto que a mim, particularmente, é estranho e parece distante: tecnologia. Liberdade e tecnologia: qual seria a relação?
Ao que parece, desenvolvimento de tecnologia para Marx é desenvolvimento de possibilidades de libertação do homem. Libertação da obrigatoriedade de se gastar boa parte do tempo na produção de elementos para satisfazer necessidades. Necessidades estas infinitas, pois culturalmente e diariamente construídas. Para Marx o aprimoramento da tecnologia não é mérito daqueles que a financiaram. É um ganho da humanidade como um todo, parte de uma capacidade especificamente humana - já que o homem na atividade prática não só se aprimora como também aprimora o modo de fazer tal atividade. A humanidade aprimora a tecnologia levando o homem a precisar de menos tempo para produzir. Menos tempo para produzir itens necessários deveria levar a mais tempo livre para se fazer o que quiser. Cada um tendo boa parte do tempo livre para gastar como bem queira é a verdadeira possibilidade de exercício das liberdades diversas. Homens exercendo suas liberdades provavelmente são homens gastando mais tempo desenvolvendo novas necessidades, novos prazeres, novas vidas, novas humanidades.

Hannah Arendt fez uma crítica a Marx afirmando uma intenção deste de reduzir os homens a meros animais laborans. No meu entender ele busca exatamente o contrário, pois trata não da liberdade para a maioria exercer o labor, mas sim de reduzir o tempo necessário das atividades para produção material a fim de que se reste mais tempo a todos para exercer o saber sem a segregação da práxis. Mas se o capitalismo contribui por um tempo para o desenvolvimento das forças produtivas, ele também gera possibilidades de relações de produções novas, que façam melhor uso das novas forças produtivas aprimoradas até então.


Os limites do capitalismo se encontram exatamente nas relações de produção - que já não servem ao aprimoramento da tecnologia e já não permitem o usufruto do tempo para que todos exerçam suas liberdades - pois é apropriação do tempo na sua roupagem de valor de troca, mercadoria, fetiche, lucro, em suma, apropriação não só exploradora de alguns, mas aprisionadora de toda humanidade.

Recentemente Mike Palecek, em um artigo para um site de discussão marxista, trouxe algumas informações que achei muito interessantes por demonstrarem que o capitalismo parece ter adentrado de fato numa fase em que não mais contribui para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Se antes podíamos admitir que era um sistema que propiciava melhor desenvolvimento das forças produtivas, ainda que com relações de produção desumanas, hoje nem mesmo tal desenvolvimento pode ser usado para o argumento, já insuportável, das vantagens de se manter a exploração de 2/3 dos habitantes do planeta.

Crescemos com a imagem do capitalismo como sistema que traz inovação nos campos tecnológicos e científicos devido à combinação de competição e lucro. Essa receita parecia ser infalível para o estímulo a novos inventos medicinais, tecnológicos, etc... O neoliberalismo propagandeou o livre mercado como o melhor campo para o estímulo ao avanço da ciência.

Palecek afirma que tal concepção hoje não se passa de um mito e chama atenção para alguns aspectos:


1. A descoberta recente de um fóssil importantíssimo para pesquisas acerca da teoria da evolução que desde 1983 foi privado dos estudos científicos devido ao fato de ser propriedade de um colecionador, demonstrando a transformação desses tesouros históricos em meras moedas de barganha em mercados para proprietários milionários.

2. A falta de medicamentos para combater a pandemia da AIDS, principalmente na África, demonstrando a distribuição dos remédios relacionada especificamente ao lucro. O lucro com a existência da AIDS, através da venda de amenizadores dos sintomas, também seria um desestímulo para a busca de vacinas eficazes contra a doença. O mesmo também ocorre com doenças como o câncer. Palecek afirma que a descoberta da molécula DCA como eficaz para a morte de células cancerígenas na University of Alberta não foi um estímulo para pesquisas privadas diante da impossibilidade de se patentear o DCA. A necessidade de se obter lucro com o desenvolvimento de novos medicamentos muitas vezes acaba por impedir a descoberta de desenvolvimento de possíveis tratamentos eficazes. A mão invisível e o estado mínimo do neoliberalismo não são mesmo um conto de fadas.

3. O boicote do desenvolvimento do carro elétrico, demonstrado no documentário "Who Killed the Electric Car". A tecnologia de bateria NiMH, por hidrogênio, teria sido patenteada pela compania de petróleo Chevron, que recusa a venda da tecnologia para estudos científicos e permite apenas a produção de carros híbridos.

4. A rapidez do governo americano, temeroso dos nazistas, no desenvolvimento da tecnologia de fissão nuclear e construção da bomba atômica, em detrimento do setor privado.

Claro que a bomba atômica não foi uma descoberta para aprimoramento da humanidade, mas o desenvolvimento da tecnologia de fissão nuclear abriu caminhos para novas formas de uso de energia, com menor exploração do meio ambiente.

O que importa salientar neste artigo do Palecek é como a competição possui uma dupla face. Pode, por um lado, servir como motivadora do desenvolvimento de novos produtos e, por outro lado, servir para impedir de virem a tona novas descobertas importantes. Se por um lado a posse de patentes pode ser uma maneira eficaz de estimular novos estudos e avanços ela também pode ser uma barreira na medida em que coloca no escuro confidencial diversas descobertas, impedindo um grupo de colaborar no projeto do outro e avançarem a ciência a favor da humanidade.


As crises no capitalismo têm demonstrado que o neoliberalismo é sempre descartado e o sistema público é acionado quando se trata de buscar soluções amenizadoras. A importância de um planejamento estratégico que vise todo o conjunto da sociedade é bastante valorizada quando o capitalismo precisa de um fôlego para continuar existindo. O que me faz lembrar, inevitavelmente, a experiência soviética.

Não se trata de desconsiderar que os desejos da burocracia no sistema soviético também consistiu em barreiras diversas e nem de exaltar um modelo como perfeito. Mas de salientar em que medida alguns aspectos podem ser tomados hoje como exemplos de novos paradigmas na construção de uma realidade nova. Sem o velho chavão de que o socialismo simplesmente não deu certo, podemos citar muitos fatores de sucesso extremamente relevantesdo ponto de vista estrutural.


Uma economia planejada nacionalmente como foi a soviética pôde fazer com que um país semi-feudal chegasse a concorrer em pé de igualdade no que tange à inovações tecnológicas do ícone capitalista mundial. O lançamento do primeiro satélite artificial na órbita da Terra, o Sputinik 1, foi realizado pela URSS em 1957: a primeira vez que o homem foi ao espaço e que se construiu uma sede espacial. Astronomia, química, matemática, os russos conseguiram levar pra bem longe as descobertas científicas através de um caminho alternativo à competição. Construíram um modelo de desenvolvimento de todo o seu território, sem o risco de concentrações urbanas ou desigualdades regionais excepcionais. Priorizaram a criação de possibilidades para expansão do sistema educacional, estatizando-o. Estatizaram também as patentes e os segredos coorporativos que obstruem avanços da ciência.

Sobre as diversas atrocidades que ocorreram  não é preciso citar. Os publicitários do neoliberalismo já espalharam por aí. Personalismo, radicalismo, assassinato de cientistas, enclausuramento de idéias, liberdades e expressões artísticas, perseguições, enfim... De fato existiu a dureza de um Estado no afã de erguer todos os sucessos citados anteriormente, resistir e vencer o nazismo e vencer, ainda, as ilusões do sistema de mercado impregnadas em todo o resto do mundo.

Mas pode-se dizer que o socialismo não funcionou por conta da experiência soviética? O capitalismo funciona? O que é socialismo? Que mundo queremos? Se as opiniões do velho Marx ainda nos valem, a pergunta que se coloca agora é o que fazer com tanta tecnologia alcançada. Quais as possibilidades de sociedade a tecnologia nos coloca? Quais as relações de produção e de vivência humana somos capazes de construir? O que o momento nos permite começar hoje?

Eu também não sei as respostas. Mas tenho um sonho.

(Continua...)

13 comentários:

  1. Parabéns pelo texto, Júlia. Gostei muito.

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  2. júlia, minha querida!

    primeiramente, vc encontrou seu lugar. esse seu blog é espaço valioso no excercício das ideias e na fluência da sua formação, sempre simpática. é estimulante ler suas considerações. eu teria alguns pontos a discutir com vc, para isso deveria fazer um blog ou colocar com mais formalidade que pontos são esses. porém, não sou suficientemente digno das minhas ideias, então digo aqui mesmo. rs. em relação a seu argumento a respeito do artigo do pelecek, qualquer liberal diria que a culpa não é do neolibelaralismo, mas do impedimento da concorrência elevada aos píncaros, já que só essa faria a vazão das forças produtivas se efetivarem. o problema seria certas amarras, garantidas, inclusive pelo estado.

    outra questão: não gosto da contraposição ao desestre humano que o capitalismo demonstrou sublinhando a experiência soviética, pois de fato sabemos de como um planejamento racional pode ter sucesso. quanto a isso não há dúvida e a questão não é essa. o nazismo nos trouxe outros problemas.

    grande abraço.
    marcelo brice.

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  3. Texto gigante que é apenas a terceira parte de um texto que, ainda por cima, continua... Isso é mesmo coisa de Júlia Lemos! ;)
    Assunto que não me interessa escrito de um jeito que me interessa? Adoooooro! Tecnologia para produzir mais enquanto trabalhamos menos. Ócio criativo. Liberdade. É o mundo que eu quero! Beijos!

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  4. Queridos! que bom que lêem meu blog, estas confusões que finjo serem sérias! Marcelo, temos mesmo que conversar pessoalmente pra eu entender o que você quis dizer. Lian, ócio criativo é o mundo que nós merecemos viver juntas! beijosss!!

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  5. Querida júlia. Seu texto está excelente e nos convida à reflexão e à polemica. O desenvolvimento da tecnologia é algo infinito e impossivel de deter. Claro que a busca do lucro como aspiração humana é algo inventado pela sociedade. Não é algo natural, inerente ao ser humano. Já o desenvolvimento da tecnicologia, da pesquisa, do conhecimento da natureza e da maneira de usa-la melhor em beneficio de todos e dela mesma, é algo natural. Não é uma invenção. A realização do homem enquanto tal está diretamente ligado à isso. E mesmo que a figura da propriedade privada da ciencia, possa trava-la e até mesmo atrazar que os homens venham a se beneficiar dela por uns tempos, não pode impedir por todo o tempo. Me lembro por exemplo da empresa de maquina de datilografia e calculadoras eletronicas chamada Ollivette. Italiana. Era um gigantesco monopólio que recusou a nova tecnologia dos computadores e até mesmo da tecnologia das máquinas mecanicas, ela manteve muitos segredos. Pois bem o resultado foi que essa empresa foi varrida do mapa pelas calculadores digitais e impressoras digitais de alta velocidade, etc. A ciencia é como uma água de um dique. Vai sendo bloqueada pelo interesse, mas não deixa de progredir cada vez mais velozmente e chega o dia em que arrebenta o dique. Marx disse em uma carta ao dono do jornal americano washington post, com o qual correspondia em sua época, que ele Marx não havia descoberto nem as classes e nem a luta de classes e que muitos burgueses analistas, antes dele já haviam feito tal descoberta e até dissecado seus varios aspectos. E que ele Marx descobriu foi apenas tres coisas a saber: Primeiro: Que as classes, a luta de classes e todo o sequito de consequencias, não era algo inerente à natureza humana, mas uma coisa que havia surgido, aparecido durante sua evolução, em um determinado momento dessa evolução e que esse surgimento (das classes e luta de classes, estado, poder politico, etc,)está ligado diretamente ao surgimento da propriedade privada dos meios de produção e que modificou sempre conforme as mudanças dessa mesma propriedade. portanto as classes e a luta de classes era produto,consequencia da propriedade privada.Segundo (descoberta de marx, dita por ele mesmo:Que a evolução da propriedade dos meios de produção (das fontes da vida)levaria à sua própria destrição, à sua negação, evoluindo para a propriedade comum dos meios de produção e consequentemente à extinção das classes e da luta de classes que lhes são inerentes. Terceira descoberta: Que a evolução da humanidade, para fazer valer, para ajudar a nascer e crescer a propriedade comum dos meios de produção, necessitaria de uma força material bruta, revolucionaria, violenta, para levar até o fim a expropriação da propriedade privada dos meios de produção, das mãos daqueles expropriadores, ou sja dos capitalistas que expropriam quase toda a humanidade e que se necessita de uma força coletiva para leva-los a provar ou executar o que fazem com todos e que também precisa e acontecerá ocorrendo com eles. E que essa força expropriadora dos expropriadores é justamente a sociadeda socialista. E que ao fazer isso libertará infnitamente as forças de produção. Primeiro fazendo ajustar o avanço da tecnologia acumulada com o seu beneficio para todos,particularmene com a redução do tempo de trabalho dos produtores e o investimento em novas tecnologias, que brotam ainda mais abundantemente quando se tem mais tempo e mais distensão das forças humanas, seja da humanidade no geral ou em cada individuo, possa ser colocada em prática. Por isso talvez os viventes de hoje não venham a usufruir como merecem, de toda essa evolução. Mas que isso chegará um dia é algo inexorável. O dique da evolução vai rompendo em cada parte, aqui e ali, mas haverá necessariamente de romper de uma forma muito mais vasta e geral. Mas seja como for voce e Lian podem marcar umas férias. Creio que nem serão notadas. Parabens para voce Julia. Escreve muito bem e seu texto é sempre uma fonte de sabedoria para quem tem a sorte de le-lo. Euler ivo

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  6. Comentário maior que o texto em questão? É a FONTE!! Hahaha! Beijoooos!

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  7. Postei e exclui comentários rsss me atrapalhei melhor eu acompanhar o debate que está interessante...

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