sábado, 29 de agosto de 2015

Hoje se foi minha avó

Hoje se foi minha avó. Não, não era a vovozinha típica dos filmes e desenhos. Ela era mais forte do que frágil. Minha vó sabia como ninguém lidar com as coisas duras da vida. Os longos dias no silêncio da sua casa, minuto após minuto, hora após hora, apenas com o som do relógio e dos passarinhos... Ela enfrentou com hombridade a guerra do silêncio dos seus 93 anos de vida. Guerra pela qual passa os idosos apegados às suas coisas e rotinas com altivez, mesmo que filhos e netos se façam presentes.

Minha avó criara 11 filhos lavando fralda de pano no tanque e cantando alto “para esquecer os longos dias em que ainda iria esperar para chegar seu homem de suas viagens de caminhão", que fazia na época. De vez em quando, também resolvia tocar sua gaita. E aprendeu a tocar brilhantemente. E eram 11 filhos e 11 mil choros e brigas, brigas das quais ela dizia não tomar partido de nenhum dos lados, “pois não era esse o dever de uma mãe”.

Ela sempre me surpreendia com presentinhos no meio da semana: bolo de laranja, goiabada, calendário de pano com desenho de corujinha, guardanapos bordados especialmente para mim com florzinhas coloridas feitas pelas suas próprias mãos enrugadas e certeiras. E ela discordava de mim dizendo que ela “não era tão boazinha quanto eu pensava. Na verdade, minha filha ninguém é assim, só bondade, isso é tudo uma ilusão”. Minha avó me ensinou com toda a sua pessoa muito do que eu sei da complexidade do ser humano. E a como ter honra diante da morte. Não só da morte física, mas das pequenas mortes ainda em vida. Lembro como se fosse hoje da gente numa fila de Banco para fazer sua anual prova de vida do idoso dizendo “é engraçado... chega uma idade que todo mundo espera tanto que você morra que é preciso ficar provando que está vivo e muito vivo”e fazia então questão de dizer de memória, para o funcionário do caixa que a atendia, todos os números dos seus dados de identidade, telefone, CEP, etc. Lembro-me também de quando me ligava dizendo que estava com saudades de mim e que “essa velha era custosa porque não queria morrer tão cedo”.

Minha avó lutou com todas as suas forças por cada segundo de sua vida. Resistiu a uma entubação e a uma amputação do pé  aos 93 anos mesmo depois de quase 15 dias solitária numa UTI na qual só podia receber 2 entes queridos durante meia hora por dia. E tudo isso num esforço surreal para manter a lucidez que tanto prezava, mas que agora só vinha em poucos momentos em meio a uma série de devaneios sobre passarinhos cantando e sobre teias de aranha que eram preciso “ser tiradas dos cantos do teto daquela casa velha”. A casa velha era o hospital. E quando ela se dava conta de onde estava, não podia se conformar com os tubos, fios e laços amarrando as suas mãos. “Espia só, como é que eu estou...”. E eu me lembrei de outros tempos de quando ela se curava de alguma enfermidade e me contava depois “só eu sei o que eu passei, minha filha. Ninguém sabe não, só eu  que sei”. É, vó...  Eu sempre soube que só você que sabia. Em Cem Anos de Solidão  Gabriel Garcia Marques já me ensinara essa lição: nossa dor é completamente solitária, mesmo que tantos saibam e participem dela. Nesse livro também tinha uma velhinha matriarca que nem a senhora, que foi ficando cega aos poucos e que ninguém percebeu quando ela chegara a ficar cega completamente, porque ela optara por viver aquela dor como de fato sempre é verdadeiramente: uma completa solidão. A cegueira que a senhora sofria cada vez maior, dia após dia, era uma dor que eu sabia que não podia aplacar. Bem como seu desespero para manter a lucidez. Bem como a dor de seus pés, que iam morrendo aos poucos e que lhe deixavam completamente desesperada por saber que neles poderia estar tudo o mais que lhe fizesse piorar. “Pode cortar do tanto que for preciso, é pra cortar pra eu viver” você disse, corajosa. E essa Vida bem pôde saber a cada momento, vó, da imensidão da sua garra e amor por ela. Guerreira das lutas dos tempos antigos, quando a mulher tinha muitíssimo pouco espaço nesse mundo, e também dos tempos do silêncio da vida idosa, quando as maiores batalhas não são apenas biológicas, mas de atribuição de sentido ao vazio quase que segundo após segundo, você lutou com honra.


E eu aprendi muito com você. Aprendi todos os dias ao atravessar aquele portal no caminho para sua casa que me transportava para a outra dimensão. Aprendi que cada detalhe é que faz o grande sentido. Tinha o café, o bordado, o biju, o padre cantor e o gatinho. Tinha os cachorrinhos que a senhora sempre arrumava não sei onde. E que preferia deixar de lhes batizar “porque todo cachorro que ganha nome acaba falecendo e nos deixando tristes”.  Tinha o cachorrinho que morreu mesmo sem lhe  dar um nome simplesmente “porque estava fazendo muito calor naqueles dias e ele colocou a língua pra fora pra morrer”. E tinha as galinhas, porque, puxa, nem era mesmo dos cachorrinhos que você gostava. Porque “bicho que se gosta mesmo, minha filha, é galinha. Das galinhas sim, eu gosto muito”. É vó... As galinhas deram muitos ovos dias atrás. E o portal que eu atravessava pra sua casa, e que com seus múltiplos sentidos simples tanto me ajudaram a sair de tanto absurdismo da vida, ainda será atravessado muitas vezes com o meu coração. 




terça-feira, 19 de maio de 2015

A pedra caiu

Abstrair-se do mundo. Tomar-se de um sentimento de flutuação. É mais ou menos assim: as pessoas debatem, a água enche o copo, o dia amanhece e anoitece, a música toca, o cachorro late, os alunos escrevem, o vento movimenta a planta, a moça canta no rádio, alguém dirige o carro... E tudo parece um grande baile liquefeito. É como se tudo pudesse ser visto em perspectiva temporal longínqua. E isso a todo momento. segundo após segundo. Dia após dia. Semana após semana. Simplesmente não se está ali. A concretude é presente. Mas essa concretude surge sempre monstruosamente permanente e monstruosamente passageira... Anos 20, anos 2000, tudo diferente, tudo tão igual. E, daqui a alguns anos, também. Tudo tão igual, mesmo tão diferente. E em outros lugares também.... Esse espaço tão grande parece sempre tão pequeno... Essa causa, essa finalidade, essa luta... Tão importante,tão necessária e, ao mesmo tempo, tão esgotável, tão melindre, tão rasa, tão nada...

"Peraí, onde é que está aquele tanto de coisa aqui dentro?" Eu procuro e não encontro. A princípio, parece um lapso. Depois, dia após dia, ele apenas se engrandece. E então permanece a cada segundo... Essa flutuação. Essa quebra. Esse despertencimento. Tristeza? Não. Alienação? Não. Desesperança? Também seria demais. Porque não há bipolaridade. Há contentamento e também não há. Há engajamento e também não há. Há limites e também não há. As bipolaridades são insuficientes aqui. De repente, simplesmente não se está mais lá. E nem em outro lugar também. E tudo funciona perfeitamente: você acorda, se veste, toma café, destranca a porta, fala coisas coerentes, escreve, concorda, discorda, fica, vai embora... Mas está do lado de fora. Pode ser? Pode não ser? Tudo pode e não pode, mesmo que possa e não possa. Tudo parece tão desnecessariamente sério. Tudo vai dar quase sempre no mesmo lugar. Esse quase é tão grande, pensa-se. Mas é também tão pequeno... Fica tudo assim. No lado de fora, mesmo estando de dentro. Esvaziamento sem querência de preenchimento. Preenchimento no total esvaziamento. Nenhuma lágrima cai e nenhum sorriso significa.

É verdade que quando tudo parece escapar pelos dedos, dedos que se desvanecem em meio às coisas como num quadro de Dalí, permanecem aparecendo algumas luzes: as luzes-pessoas. E então eu lembro-me de novo de quando ouvi Raquel de Queiroz na TV. “Você gosta da vida?” Perguntaram-lhe. E ela respondeu: “A vida? Não. Não gosto da vida. Eu gosto das pessoas! Ah, sim, das pessoas eu gosto!”. Ah... Eu também... Acho que é isso aí. As pessoas... Pessoas que nos permanecem, mesmo que não nos demore. É verdade... existem todas essas luzes. Nesse estádio de liqui(di)ficação flutuante, em que tudo escorre por dentro do absurdo, há luzes que invadem, atravessam e significam. Não, não tem nada a ver com paixão não. É claro que a pessoa-amor produz os lapsos mais intensos de não flutuação. Produz sobrevivência e além. Mas tem também as luzes da insignificância dos dias. Aquelas que, aqui e ali, invadem sem que se queira o espaço da abstração e fazem um total sentido numa troca, mesmo que breve.  É a pessoa simples, tipo a moça que te deu uma informação com simpatia ou o senhor que se dedicou tanto para escrever uma linha caprichada no papel. 

Imagens de arte bombardeiam a mente. "É isso, a arte. É isso, a arte. É a arte". A arte. Parece um canto de fada – ou ventos – nos ouvidos. Lembranças então da infância: "tintas são tão lindas, elas se misturam, elas viram outra cor, a gente pode fazer as cores que quiser e pode fazer figuras e tudo pode ser sempre assim, tintas e mais tintas". Mas, puxa, tem a filosofia. "Ah, a filosofia, essa minha amiga amarga. A gente se estapeia em meio a momentos corriqueiros do cotidiano. A gente se ama e se ri uma da outra. A filosofia, amada minha... Ela é a culpada! Ela me trouxe até aqui, não quero ela não, a filosofia não... Mas, como, como sem filosofia?". Correntes que me prendem para me lançar aos voos, te quero como não te quero.

As pessoas... Sim, as pessoas são os pontos de luz que nos sobrevivem na quebra. "Mas essa quebra é minha demais. E vai até o magma da Terra. Esse mesmo magma que quebra paredes e lança cinzas nas cidades. Essa quebra é muito minha. E é líquida. Desse mesmo líquido que corre os espaços e se comunicam com o universo". A quebra não tem cheiro, nem cor, nem som, nem palavra, nem nada. E nem é um nada também... "Ah., já sei! É o absurdo de Camus", disse-me aquela amiga poeta. “Leia o Mito de Sísifo”. “Ah... é?”


Sísifo rola a pedra para cima do topo, a pedra rola montanha abaixo e ele a rola para cima de novo. Numa maldição interminável. E a rola e irá rolar sempre, por toda a eternidade.

Perceber a eternidade do rolar. Perceber que a pedra caiu. E que ela vai cair de novo. Ir lá e busca-la. E leva-la ao topo de novo. E ela cair de novo. E de novo... "Maldição, essa amiga filosofia!" – "Mas... Nela a felicidade é sublime, li uma vez em Mill". "E é isso mesmo, disse-me outra vez uma outra amiga". "Não sei. Não sei. Não sei". Consciente da eternidade desse rolar sem fim, essa pedra se torna tão pesada que se chega a flutuar. Pois... Essa eternidade das pedras sempre a cair... Acho que essa não é  só muito minha, mas de toda a humanidade.

Então..."Rebelar-se como, Camus?". A pedra, Camus... A pedra é o sentido.




sábado, 10 de maio de 2014

Lian, obrigada por cuidar bem de você!



Lian, hoje é seu aniversário e estou aqui pensando em que buraco você se escondeu dessa vez. Em que pedra subiu ou em que árvore se dependurou. A única certeza que eu tenho é que você foi celebrar o seu dia do modo mais precioso para se alimentar o espírito. E fico tão imensamente feliz de pensar que você está tomando conta de você, tomando conta do jeito que se deve, de um modo inteiro, de corpo e alma, da maneira que tem direito e com todo o cuidado necessário.

Houve um tempo em que achei que eu podia cuidar de você, te proteger de qualquer coisa que viesse lhe fazer mal. Porque muito cedo eu percebi que aquela menina de traços tão resolutos era, na verdade, o ser humano mais sensível que eu já havia conhecido. Eu achava que só eu percebia isso. E algo me fazia crer que só eu poderia sempre te defender de todo o mal.  Taí um capítulo digno que faltou em nosso gibi. Então, vamos lá, eu dizia, não precisa se preocupar, eu sei ser forte e vou cuidar disso pra você não chorar. Ou então, desatava a te dar broncas: esse caminho não... Não vai por aí, não vai por aí... Mas, de repente, quando eu me dava conta, era eu quem estava chorando embasbacada e você é quem estava ali me defendendo e sendo forte sem derramar uma lágrima. De repente, o mundo dava uma de suas primeiras cacetadas contra nós – e nem imaginávamos o que ainda viria pela frente – e era você quem estava cuidando de mim.   De repente, só você conseguia me proteger. E aquela fragilidade foi se revelando pra mim na sua maior capacidade de reverso. E eu percebia cada vez mais desconfiada e mais intrigada que a mais imensa sensibilidade e os mais malucos riscos podem ser as formas mais eficazes de se proteger do mundo. E eu gostei tanto! Gostei tanto disso! Você se mudou para o Rio e, sim, você sabia se proteger, sobreviver e viver! E, mais do que isso, você, simplesmente você, assim do jeitinho que você é, era uma escola para o mundo inteiro.

Com você o óbvio cada vez mais se desfaz de um jeito mais bonito, criativo e amoroso. E o mundo, que de repente se revelou muito mais difícil do que eu imaginava, também se mostrou possível de ser muito mais prenhe de humanismo, de sonho e de beleza do que antes... E tudo isso na medida em que você, tão pequenina, foi se abrindo mais para ele- tão imenso, controverso e assustador. Nesse processo, você se tornou mais do que uma amiga, se tornou uma espécie de porto seguro da minha esperança: se existe uma alma tão linda como a da Lian, tudo, tudo pode ser diferente. Tudo pode ser diferente não simplesmente por poder ser mais amor (por favor!), mas por poder ser mais amor na liberdade de todos os mesquinhos preconceitos, no desejo real de (re)conhecimento de humanismo nos “estranhos” para além de diferenças de cultura ou de posses materiais, no retorno à infância de maneira genuinamente entregue ao riso solto e ao mundo da fantasia, na possibilidade de uma elaboração desinteressada de arte, na conversa de silêncio sem pressa com a natureza. Com você o mais amor é muito, muito mais humano: é revirada e quebra de todas as receitas de sobrevivência e vivência sempre que essa quebra seja mais beleza e encantamento.

Então, seja lá onde estiver, obrigada por cuidar bem de você. Obrigada por cuidar bem de você cuidando bem do mundo, coisa tão difícil hoje. Obrigada por escolher criteriosamente seus alimentos, por subir tão alto e por arriscar tanto sua subjetividade. Obrigada por se dar o direito fugir de tudo para um encontro verdadeiro contigo mesma sempre que julgar isso necessário. Eu sei bem que o mundo precisa muito, muito de você e que, especialmente hoje, o universo inteiro agradece todo esse cuidado. Mas eu agradeço ainda mais, porque na teia dos caminhos do meu universo particular, você é um dos sentidos realmente essenciais de uma mais completa (des)ordem!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tatiana: o amor majestoso


Ela nasceu, digamos assim, como uma revolução. Porque embora tenha sido planejada, gestou-se de um caos para formar-se em maravilha. Mas é revolucionária que nasce a Natureza em sua completude: toda razão e lógica explode em fantásticas reviravoltas de emoção. Só assim transfigura-se deslumbrante em cores, formas e sentimentos indescritivelmente belos. É nesse todo de reviravoltas que ela é profunda e abraça o universo como a mais caridosa mãe. Tentar entendê-la capturando um momento ou uma parte é perder sua grandeza, ou seja, é perder sua essência: a capacidade de se refazer refazendo a todos para si e em si. Natureza que é, ela é majestosa. Cheia de segredos. Centelha que chora em rios, mas renasce em sol. Tormenta que se revira, mas retorna-se em raiz maternal que protege todos os galhos e folhas das tempestades. Como revolução que nasceu,  revolução é.

A frondosa Natureza é ela toda uma mulher.Tatiana fez-se da relação de amor entre a mata amazônica e guerrilheiros por um mundo mais justo e bonito. Como fruto-Natureza, fez filha ao mesmo tempo em que fez-se mãe do mundo inteiro, herdando assim a revolução de sua raiz: ser ao mesmo tempo o princípio e o futuro, a semente e a sombra, água e luz que alimenta. Ainda bebê ela fora a nutrição para os seus pais em amor e reconhecimento de humanidade. Ainda adolescente ela fora a segunda mãe de suas irmãs cuidando da segurança, carinho e educação. 

A sua essência de um todo-mãe reviravolto é a própria Natureza: não se sabe com razão, mas se faz por emoção. É por tormentas que ela segue seu fluxo de querer cuidar dos frágeis seres humanos como se fossem seus próprios filhos. É por tormentas que ela segue seu fluxo de não conseguir deixar de sentir na pele o que o outro sente. Afinal, a frondosa Natureza também quer ser filha e é nesse todo que está sua alegria e dor. E ela faz maravilhas ainda que passando pelas angústias do parto. Majestosa e misteriosa como natureza-mata-amazônica também é toda sol, linda, radiante e estonteante após as tempestades. Não poderia deixar de ser esse misto porque é grande como a própria Natureza, traz a dialética do rio revolto que tudo arrasta e do caos que pare uma estrela dançarina. E de um doce cativante a qualquer um que permite-se conhecê-la e simplesmente deixar-se ser por ela. Casa-se Plínio, faz João e Nina, e ainda permanece um oceano de tesouros raros.

Ela retraduz com a altivez a grande mãe e o grande pai - guerrilheira por humanidades. Ela retraduz com feminilidade a grande Natureza: não se trata de entender razões e sim de gerar amor para além de qualquer lógica. E é esse amor que abraça. Amor que cura. Amor que une. Amor que nos sustenta sem saber-se esteio. Sem saber-se grande como é. Tal como a própria grande natureza não se sabe, Tatiana também nem imagina tamanho ar, água e nutrição é de tantos. Quem dirá o meu... Hoje, no dia do seu aniversário, insuficientes são as palavras para dizer-lhe: te amo, te amo, te amo.




sábado, 7 de dezembro de 2013

Suposições sobre mim

 (Da série: divagações de adolescência em baú -2005 - e que jamais se queriam publicados no momento em que foram escritos. Inspirado em algum texto, não me lembro qual.)

 * Tenho espírito livre

Quase não caibo em mim
Sou bicho de 7 cabeças
Todo tempo é pouco

* De uma vez só

Algum trocado pra dar garantia
Algum veneno antimonotonia
Brincar como criança e amar como uma dança

* Amo os loucos não declarados

Desconfio dos que se dizem pirados
Desejo amor ao ser e não ao ter
Desejo para todos trabalho em tempo curto e diversão na maior parte do dia

* Venero o tempo.

Há que se ter tempo para exercer a liberdade
Há que se ter justiça para se ter tempo
Há que se ter espelho para exercer a justiça
Há que se ter coragem para não olhar de cima pra baixo ou de baixo pra cima

* Estereótipos não me atraem

* Ironias não me convencem

* Liberdade é amor ao humano

Odeio a liberdade privada
Odeio a paz que é medo
Odeio o autoritarismo travestido de liberdade

* Quero criar

Sentar na grama e mexer com tinta
Voar com o outro
Ser (não)inteira como uma música





O espaço entre-bolhas

(Texto do baú de 2005, para o projeto "Bolhas", revista eletrônica).         

As bolhas, apesar de serem transparentes, trazem um sistema muito complexo de coisas trançadas, embaralhadas, as quais formam um todo com alguma uniformidade. Uma bolha não tem nada de vazio. Na verdade, bolha é exatamente o oposto do que podemos conceber como vazio. Quando conseguimos gritar em nossos corações uma palavra de ordem que defina nosso ânimo ou até mesmo quando conseguimos dizer para alguém uma opinião que temos com muita convicção, estamos fazendo árvore. Quer dizer, antes deste processo muitos detalhes se multiplicaram e se envolveram um no outro. Embora na maioria das vezes seja difícil ou simplesmente não aconteça de compreendermos todo o entrelaçamento, não há dúvidas de que ele existe e começou pequeno. Ou de algum nada. A prova disso é justamente a nossa certeza, quer dizer, a nossa condição de encontrar uma palavra, e até mesmo de formar uma frase, que faça um sentido muito lógico, ao menos para nós.
Fiquei pensando durante muitos dias sobre algo a dizer que não fosse falar sobre o clima, os afazeres diários, as surpresas da rotina. Algo assim como um todo, um sentimento, uma verdade. Algo que se pudesse escrever em um cartaz, em um outdoor, quer dizer, algo que fizesse sentido ou importância suficiente pra dar vontade de dizer para outros. Outros não apenas fora de mim, mas completamente distantes de qualquer idéia daquilo que sou. E não encontrei nada. Mas como explicar que nada é mesmo nada, que simplesmente não havia sentido em qualquer palavra ou frase, se nem mesmo acho possível um nada no sentido mais puro? Acho que a melhor explicação é dizer isto: quando digo nada não quero dizer sem sentido, mas sim sem um importante sentido para uma bolha qualquer. Importante é um sentido que para os outros também é interessante e compreensível, que possui um todo. Não tenho pretensão de que alguém aceite ou mesmo compreenda quando eu digo que não encontrava nada com sentido importante e por isso considerei simplesmente isso ser um nada. Eu sei que isso aconteceu num momento e foi completamente diferente de tudo o que eu já havia passado nas minhas experiências pessoais. Senti-me des-pertencida a qualquer bolha. Não pedi “socorro”, mas acho que teve tudo a ver com aquela música do Arnaldo Antunes em que ele diz que não está sentindo nada.
Percorreu-me o pensamento de que talvez fossem todas as bolhas vividas anteriormente que tivessem algo de muito religiosas e que, de repente, fosse simplesmente isso: eu havia entrado numa bolha em que não há fé cega e nem grito. Mas isso foi assustador demais pra mim e escapou a qualquer idéia que eu tinha de bolha. Não posso concordar que exista uma bolha assim, sem fé em coisa alguma e que não queira nem mesmo querer. Porque penso que uma bolha tem sempre uma força que a rege como princípio, mesmo que este princípio não seja compreendido.
Escrevo agora porque este momento passou. E acho que, agora, conseguindo escrever e concatenar coisas com algum sentido mais unificado, penso que as bolhas não são grudadas. Bolhas devem ser mesmo como aquelas de sabão que sopramos no ar. E podem até se grudar às vezes. Adentrarem-se umas nas outras. Mas não é regra que elas sejam grudadas. As bolhas flutuam em algum espaço que é não-bolha. Ainda que elas fossem grudadas, se forem mesmo redondas (e acho que são mesmo redondas, pois assim se movimentam e fluem com mais facilidade, e é assim que as bolhas da vida funcionam) temos que considerar um espaço entre as bolhas que não é bolha alguma. Este espaço não-bolha possui coisas soltas, não sistematizadas. Coisas que fazem sentido apenas quase encerradas em si mesmas e por isso não se declaram como um sentido, como uma bolha. Não conseguem de fato se conformarem num sentido maior. É como aquelas respostas pra perguntas que não respondem às perguntas, mesmo que usem as mesmas palavras também presentes na pergunta referente.

O espaço entre-bolhas, ou espaço não-bolhas, é apático. Nada solicita e não assume qualquer não solicitação. Chega a ser quase um recalque, mas não o é, pois isso seria excede-lo, que dizer, isso já seria “bolha” demais para ele. É simplesmente um entre-bolhas, lugar onde não é nada confortável de se estar.                                                                                                                                                                                                                   

A dança do Bosque Auguste de Saint Hilaire

(Artigo experimental para o Jornal Samambaia - UFG, 2005)        

  Em maio a barriguda tem flor. E suas folhas vão caindo. Quando for tempo dos frutos amadurecerem, ela já deve estar totalmente desfolhada. Enquanto isso outras árvores nos fazem sombra com suas copas verdinhas e cheias.  No Bosque-Saint Hilaire do Campus Samambaia a dança é assim: cheias e despidas, verdes e coloridas, folhas caindo em algum lugar. Folha, desfolha, desfolha, folha: “nunca a queda das folhas é uniforme” – afirma o Professor Doutor José Ângelo Rizzo. Ele explica: “é uma cobertura característica da região centro-oeste e chama-se Floresta Semidecídua Estacional”.
O Bosque Saint-Hilaire resultou de uma fragmentação ocorrida há muitos anos em uma região de área verde maior, resultado da urbanização. É um fragmento com aproximadamente 20 hectares, uma das poucas áreas com vegetação primitiva no município de Goiânia. Seu nome homenageia o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve em Goiás no início do século XIX e atuou em benefício da conservação dos recursos naturais desta região. O bosque possui permanente política de preservação desde a década de 60 e hoje está totalmente integrado, não degradado. Esses são dados da Unidade de Conservação da Universidade Federal de Goiás, dirigida pelo Professor Rizzo. As trilhas ecológicas, as mesinhas e bancos instalados, as placas que trazem o nome científico de várias plantas são mecanismos administrados pela Unidade para permitir uma interação saudável com a natureza: “sem prejudicar a estrutura da mata, que deve se manter em processo de recomposição normal”.
A proteção de tela que envolve o bosque não impede a circulação das pessoas dentro dele. Árvores, estudantes, professores, macacos e outros bichos convivem em harmonia. Os macacos, que se mantiveram nesse fragmento verde, pulam de galhos, carregam filhotes nas costas, atravessam os caminhos. E quem passa sempre pelo bosque aprende a lidar com eles. Seja dividindo ou escondendo o lanche.  “Uma vez um deles roubou uns biscoitos de peta que eu estava trazendo da FAV”  afirma a estudante de jornalismo Lian Tai.  “Já vi eles várias vezes revirando o lixo, até refrigerante eles tomam”, conta o ex-estudante de filosofia Relton Júnior. Mas bolachas e refrigerantes não são aconselháveis para a dieta destes diferentes primatas. De acordo com o Professor Rizzo existe a idéia de se fazer um projeto que pesquise a situação da população dos macacos no local para a elaboração de políticas de controle: “sem um predador a população pode crescer muito e não ter condições de se alimentar”, afirma. Para a Unidade, só depois desse estudo será possível resolver a insuficiência de alimentação na flora, possivelmente através de um plantio de árvores frutíferas. Isto sinaliza que as latas de lixo seletivo, que de acordo com Rizzo foram instaladas para iniciar um aprimoramento da coleta seletiva, continuarão por algum tempo sendo reviradas pelos macaquinhos, assim como as latas comuns distribuídas pela UFG.
Pesquisas como a de levantamento da população dos macacos precisam ter a autorização da Unidade de Conservação para serem realizados. A coleta de aves para o “Estudo Integrado para o Conhecimento da Ornitofauna do Estado de Goiás”, por exemplo,  só pôde ser feita no Bosque Saint-Hilaire após aprovação da direção da Unidade. Assim como o projeto “A escola vai ao bosque”, que permite que as escolas da rede municipal e estadual tragam estudantes para aulas de educação ambiental na mata.
A conservação do Bosque Auguste de Saint-Hilaire objetiva a preservação da vegetação primitiva de uma floresta semidecídua estacional, que é típica da nossa região. Além disso proporciona, é claro, que os bichos cruzem nossas trilhas e que a dança continue. Pois depois das Paineiras, tem a floração dos ipês amarelos, roxos, brancos...