quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pombo-correio de volta à amiga da carta de assalto


É um alento ler uma carta sua assim, no meio de uma quarta-feira, bem no meio de tudo, chegando de assalto. Eu também sempre te escrevo cartas mentalmente e elas ficam ali como um diálogo com você que é quase sempre um outro Eu com quem falo de tudo. Mas, de repente, nem é de tudo, tenho medo de ser muito sem sentido e me pego nesse você falando comigo onde é que está a lógica, afinal, de tudo o que estou dizendo. Eu me disperso tanto, e você me ajuda a perceber o ilógico, e então nem é de tudo que falo. Mas, de repente, eu acabo falando porque você nem é exatamente esse sentido lógico e sim alguma calmaria da alma, porque nem mesmo responde sempre, às vezes só ouve e pronto. Nem chego a escrever essas cartas, porque é tão difícil organizar tudo sem fazer perder exatamente o sentido que tem: o Caos.

Engraçado que dias atrás também falei sobre morte e também foi com a minha mãe e nem se trata de morrer de verdade, mas simplesmente de se descansar disso que agora repete na minha cabeça numa palavra: o caos. E ela se assustou. De fato, não se fala nessas coisas. Aprendamos. Mas tanto caos passa por mim a todo tempo e eu quase sempre me esqueço de não me encabular. Porque sei que tem a coisa do vazio e, afinal, já ouvi mil vezes, de onde esperar algo diferente? Você já não sabe? E ele sempre me dá um soco e eu simplesmente me esqueço que não há descanso e que esse vazio antes de ser calmaria é cheio de choques. Uma agonia, de vazio só um nome enganador. Minha mãe disse: você é feliz. A gente vê que é. E eu pensei: é. Mas tem alguma coisa... Esse cansaço. Cansaço de que? Essa... Essa impossibilidade de quietude... Mas vai ver é isso que você disse e sempre diz tão bem: felicidade com melancolia. Só que acho que me vem mais melancolia porque é com meus pensamentos que fico o dia todo trabalhando. E então dá vontade de sair por aí e simplesmente fazer, porque pensar é melancólico. Mas tem os prazos e exatamente o lado de fora. E nem sei onde começa e termina o caos, porque ele é caos.

Dias atrás eu me peguei exatamente com a sensação da minha criança. Entrei numa sala de balé e fiquei ali, relembrando os passos de quando eu fazia plié e estique. E tentava uma ponta. Mas, sobretudo porque tinha música, o que importava era fazer de conta que o corpo apenas expressava aquela melodia linda de maneira leve. E, que nada. Não tem leveza coisa nenhuma: é pesado levantar a perna e falta fôlego e tem suor e dói tudo. De repente, só mesmo pra quem vê de longe é que tem leveza no balé. Porque tudo na realidade tem que ser assim: duro, concreto, cheio de choques e cansaços. Mas também é mentira que eu dancei. É que dias atrás no Campus da Ufg eu fiquei deitada dentro do carro vendo os prédios iluminados (era noite) e resolvi dançar balé. Porque ser criança é dançar balé. Mas depois de um tempo meu corpo se lembrou. Dançar balé também é pesado.

E eu nem sei bem o que é arte, porque sempre quis saber pra poder ser artista. E daí nem quero mais saber, porque arte não tem que ser isso. Eu danço balé, eu pinto quadros bem coloridos e toco muitos instrumentos. E esse caos acho que basta pra fazer alguma coisa assim, meio bela mesmo que feia, algum (sem)sentido. A arte tem só que... Tem que ter corpo e matéria também. Mas então alguma felicidade melancólica e doidice viram alguma estética quando a gente coloca corpo no meio. Mas, que coisa, a arte tem que poder não ser definição, porque pensar é cansativo e arte é descanso. Eu acho.

Eu também estou com saudade de você e dessas biografias que não acontecem e que se conta. Porque fatos já temos o bastante. Para saturar. E sentidos também. Às vezes penso que é uma maldição essa coisa de fatos e sentidos e pra que isso tudo...? Talvez justamente o que falta, como eu já sei e não admito, é justamente o corpo pra só viver e pronto. E deixar chover, sem melancolia nem nada, só mesmo ver a gota cair e tudo tão assim, dado de graça e em estado de graça. Por isso acho que felicidade tem a ver com calar a boca da alma que tem algo a ver com mexer o corpo e vai ver que esse choque do balé é de fato descanso.

Eu também estou com saudade e espero te ver antes do mundo acabar e, depois que ele acabar, a gente continuar se falando em nossas cartas quase diárias. Daí você me conta como é virar bicho ou a terceira margem do rio. E eu te conto algo sobre Neruda, porque acho que vou conhecer a casa dele e escorregar em algum poema lá.

sábado, 8 de setembro de 2012

Belchior e eu: o delírio das coisas reais



"Eu quero é que esse canto torto, 
feito faca, corte a carne de vocês" 


 Preencher o vazio, negar a falta, reverter o negativo no positivo sempre envolve uma grande dose de transcendência. Ontem eu ouvia Belchior e ele dizia que quando veio do interior para a cidade grande trazia de cabeça a canção do antigo compositor baiano que dizia que tudo é divino, tudo é maravilhoso. Tratava-se da canção de Caetano. Esse divino e maravilhoso é transcendência, um escape do real que Belchior não tem mais interesse. Eu me identifico, porque também trazia comigo o divino e maravilhoso: o ser humano não como repleto do vazio e do negativo, mas o negativo como um momento que logo será revertido, porque no fundo todos somos divinos e maravilhosos. Tratava-se de uma leitura do Marx. De um divino maravilhoso que não tenho mais interesse e troco por uma outra postura, que talvez seja mesmo um outro Marx. De todo modo, é um outro jeito de sonhar.

Belchior repete isso: amar e mudar as coisas me interessa mais, eu não estou interessado em nenhuma teoria. A verdade sempre está firme com quem preenche todos os vazios. A teoria tradicionalmente sai da concretude: ela é essa transcendência de uma eterna possibilidade do divino maravilhoso. Esse divino maravilhoso que condena todo vazio, todo negativo, toda falta como um mero presente cruel e passageiro. A insistência no preenchimento condena eternamente todos os homens do presente. E é sempre uma condenação do outro: os outros são cruéis, negativos e cheios de faltas, mas o ser humano divino e maravilhoso sabe o caminho para tudo ser divino maravilhoso. O eu dotado da transcendência que condena a todos é no fundo um otimista e, porque não dizer, eterno positivista: ainda que sua teoria se coloque como reverso, ela cai no encerramento, no preenchimento do vazio como progresso. O meu outro Marx, o da dialética, mantém esse negativo: o vazio é para ele concreto, o que não nos impede de mudar as coisas. Eu disse ao Freud lacaniano: o insuportável do vazio é que ele é concreto, ele não é teoria. O vazio é real, posso pegar nele, posso senti-lo todos os dias no cotidiano da vida bruta e sem delírios e é por isso que o vazio é dilacerante, e é por isso que tendemos a cair no divino maravilhoso que sempre condena o outro e que dá ao vazio uma negação sempre absoluta, fantasiosa.

“Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso, nada, nada é secreto, nada, nada é misterioso, não”, diz a canção de Belchior. Não existe maravilha, nem segredo e nem mistério: a vida é o que é, não há vazio a ser preenchido, não há um mistério a ser revelado que reverta o negativo. A vida é o dia a dia concreto é o “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha, blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais. Garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro, os humilhados do parque com os seus jornais. Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar, e a solidão das pessoas dessas capitais. A violência da noite, o movimento do tráfego... Cravos, espinhas no rosto”. É esse o concreto do vazio, do negativo: humilhados no parque, trabalho, solidão, as pessoas cinzas e normais com seus cravos e espinhas no rosto. Nada é secreto nem misterioso. Por isso, “Eu não estou interessado em nenhuma teoria em nenhuma fantasia, nem no algo mais, nem em tinta pro meu rosto ou oba oba, ou melodia, pra acompanhar bocejos, sonhos matinais, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais.” Não há nada de divino ou maravilhoso, as teorias são fantasia que buscam esse algo mais, são sonhos matinais daqueles que ainda não acordaram para a presença irrevogável da dureza das coisas reais.

Belchior nos canta essa concretude que diz: o vazio não vai ser preenchido, a salvação do negativo não virá, ele é parte do real. Mas insiste:“Eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco. Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor.” E ele é apenas um cantor que diz a vida, a vida é que está repleta do negativo: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”. Não convém falar sem ferir ninguém: todas as palavras sempre podem machucar, são como navalhas. As palavras de Belchior não tem escolha, a vida em si é cortante e dilacerante:  “não se preocupe, meu amigo com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente, quer dizer, a vida é muito pior”.


Esse Belchior que me fala dessa vida pior, me felicita com comunhão. Eu também não estou mais interessada em nada que resolva, estou mais ligada ao delírio como experiência das coisas reais, das pessoas cinzas normais. E isso nada tem a ver com abandonar os humilhados nos parques com os seus jornais e sim em abandonar a fantasia do preenchimento para a abraçar as mudanças possíveis e engendradas nessa dureza do concreto. “Tudo muda e com toda razão”: a vida concreta está sempre em movimento e, mesmo que nunca se preencha, sempre se transforma. Abandonar as fantasias, as teorias que sempre condenam o presente não é profetizar o terror: “longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia, amar e mudar as coisas me interessa mais”. É simplesmente isso: amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas, sem a fantasia, sem o oba oba de um grande algo mais.

Amar e mudar as coisas é a imagem de dois policiais “cumprindo o seu (maldito)duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida”. Desde uma postura no nosso dia a dia individual, cumprir a dura rotina sem abrir mão do amor e da liberdade é defender a vida, a vida simplesmente,  com toda a sua presença e falta. Não se trata de resolver, amar e mudar as coisas é tudo o que nos resta e tudo que também me interessa.

Longe das profecias extremistas, não estamos nem no bem, nem no mal. É tudo proibido ao mesmo tempo em que é tudo permitido: “até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê”.

Podemos até sacar a arma e atirar em Belchior pela sua aspereza de detonar nossas ilusões. Mas o vazio não é universal, lembra? Sem a repleta maravilha ou a repleta falta, podemos matar as fantasias e podemos matar Belchior ao mesmo tempo em que comparecemos em ambos (negativo e positivo) o tempo todo: Belchior também se compromete a nos oferecer algo de bom mais tarde:

"Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar, mate-me logo à tarde, às três que à noite eu tenho compromisso E não posso faltar por causa de você”. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

Reconhecimento



Estes dias não têm sido muito fáceis. Pois eu, que tanto tenho me doado nas coisas que um dia previ e temi como adultas, me paralisei com a possibilidade de esquecer ser criança. Fiquei mesmo completamente amedrontada.

E se de repente minhas grandes amizades se cansassem da minha ausência? Então talvez eu devesse ser menos ausente. Mas e se de repente fosse mesmo pela presença que se desse nelas o esquecimento da Júlia que sou? Eu sei o quanto ultimamente me pego fora de mim. Ou dentro, ensimesmada. Estranha ao que vem de fora. Por isso quando sou flagrada nestes momentos, fico aflita. Porque a distância pode ser perdoada, mas o estranhamento não.

Os momentos em que nem eu me reconheço são perigosos. Como pode o outro me reconhecer? Não consigo imaginar algo diferente de um grande e fatal estranhamento. Então, como eu sempre me contorço por dentro só de pensar em perder minhas grandes amizades, fujo do encontro para não correr o risco. A distância me parece mais segura. Mas por vezes os planos me atropelam e eu não consigo escapar.

Esses dias fui revirada. Eu tinha me perdido de mim quando aconteceu o que eu menos desejava: fui flagrada. E então me contorci. Veio-me o susto do pensamento de que tudo pode se perder em um segundo. Achei que tinha sido fatal, que nunca mais seria reconhecida de novo. Mas a vida me veio com uma dessas respostas bem claras. Aliás, uma sequência de respostas.

Fui pega de surpresa bem no meio do medo com uma ligação inesperada de uma das pessoas que mais amo nesse mundo. Ela me ligava pra compartilhar uma grande alegria. O compartilhamento se fez espelho. E aquilo me encheu a alma. A alegria dela virou a minha e a amizade gritou.

Dois dias depois fui pega de surpresa de novo com outra ligação especial: uma amiga com quem eu não falava há muito tempo e que me lembrou quem eu era. A amizade preencheu o vazio.

Então, com tanta esperança de reconhecimento, me entreguei ao flagra. Fui visitar uma grande amiga de infância que teve uma filhinha no dia do meu aniversário. E, como se não bastasse,  fui presenteada ainda mais com uma conversa tão livre e solta e sem medo como há muito tempo não repartíamos. A amizade voltou a ser inocente.

Foram tantos desnudamentos que logo me vi de volta. Minhas amigas me relembraram a mim. Elas, para as quais eu por tantas vezes me faço longe e distante. Percebi com muita força o quanto meus pedaços estão todos guardados, um pouquinho em cada uma e o quanto estão ao meu alcance. Eu posso sempre voltar e me recolher e me refazer. Porque elas me sabem quando eu não tenho a mínima idéia de mim.   

domingo, 13 de março de 2011

O meu mar



Pode ser clichê, mas eu sempre vejo no mar uma metáfora da vida. Eu vejo esforço quando o mar volta se descolando da areia. O recuo de suas ondas é sofrido. É o mar em dor, em força de embotamento, contenção. O mar revolve tudo em sua volta a si mesmo, me parece sofrer. Mas é um recuo que se faz necessário: sem ele não há acúmulo, não há crescimento de uma nova onda. E a onda é esse recuo se acumulando... e logo desfazendo em queda, em entrega: vem farto, livre, se joga e se deixa fluir até todos os limites possíveis, até desaparecer em finas águas sobre a areia.

Parece-me doer no mar o seu recuo, me parece um esforço em que todas as forças se sugam, todas as energias se revolvem em si mesmas. Parece-me libertação a queda da onda, extroversão, vôo, desenraizamento. Parece-me o mar se libertando de todo seu recolhimento doído. Mas logo vejo esse duplo e simultâneo encontro: a onda é queda, é o lançar-se em entrega inteira, sem meios termos. As águas lançadas hão de se revolver novamente em dor e só assim a liberdade se faz, no seu desespero que inevitavelmente será recuo e contenção e parecerá relaxamento e liberdade e logo dor de novo. Não há um ponto final, não há um fim: a entrega voluptuosa em expansão é sempre queda a um recuo forçoso a fim de ser nova entrega.


Não há beleza nem tristeza nesse movimento que pra mim é a própria vida. As coisas não querem saber das nossas emoções. A vida não tem o menor respeito com os nossos sentimentos. Ela é simplesmente assim: entrega e recuo, euforia e contenção. Se me canso desse movimento, é verdade que também me excito. Se não há condescendência, me contento com a entrega no meu esforço de recuo para me derramar sempre e de novo. Se há sempre dor, também sempre há alguma recompensa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Platão, linguagem e democracia

(O texto abaixo trata-se de um trabalho para uma disciplina da faculdade)                      

Quando o pertencimento de sangue, classe social ou a competência do saber especializado deixam de contar como critério para a participação na decisão da vida em comunidade, temos a realização de uma novo princípio: o democrático. A criação do regime de isonomia realizada pelo grego Clístenes será porém a centelha não só deste grande valor político,
mas também da eclosão de uma questão filosófica que por muito tempo definirá a própria filosofia e que - ainda - nos colocará um enorme desafio político. Se todos na pólis podem dar sua opinião e se cada falar é tão legítimo quanto o outro, sendo princípio democrático justamente essa legitimidade que independe de formação especializada sobre o assunto de que se fala, a capacidade de usar a linguagem de modo a persuadir se impõe. Impõe-se também o desligamento do dizer com a verdade, do logos com o ser, da linguagem com as coisas. Segue-se daí as mais diversas relações entre os homens e a idéia de verdade, mundo real, coisas em si. E o grande problema da relação entre linguagem e política.

O choque de Platão com a morte de seu mestre Sócrates reforça o choque com a gravidade dessa cisão do logos com o ser, na medida em que este homem condenado à morte pela própria cidade demonstra ser o mais comprometido com a moralidade e o bem público. Esse incessante ato de dizer, de ser cidadão pelo falar - de ter prestígio pelo melhor discurso - inaugurado pela democracia ateniense gera contraditoriamente um descompromisso com o que é justo, bom e moral na medida em que é possivel persuadir sem estabelecer necessariamente conexão da fala com uma verdade . Platão segue seu mestre na busca da adequação do logos com o ser. Mas enquanto Sócrates o faz através do seu incansável questionamento o que é justiça, o que é piedade e outros o que é com fins a simplesmente fazer na prática o que é justo e bom, Platão vai além deste nível. Ele tira as últimas consequencias do ato filosófico de Sócrates, que é a tentativa de reunir o diverso em definições únicas, fazer as diferentes opiniões e multiplicidades se reduzirem a uma única verdade. A sede por esta verdade única, um uno a que se pudesse recorrer para alcançar os conceitos, que devem definir a essência das coisas, fazem Platão definir uma ontologia do inteligível com existência independente da multiplididade do sensível. O dualismo ontológico de Platão é erigido, portanto, no seu esforço de obter

garantias contra os profissionais do falar, do seu desejo de se libertar de tantos múltiplos, tantas opiniões que se fazem valer sem de fato estarem de acordo com as coisas reais. Pois este fazer-se valer pelo mero ludibriamento de palavras postou-se como algo muito grave, revelou-se capaz de levar os homens a grandes confusões e a absurdos, a exemplo, extremamente chocante e instigador, da condenação do grande mestre Sócrates.

A linguagem e o ser, o dizer e a verdade, o logos e as coisas, eis terrenos que a filosofia não se cansará de relacionar e realizar. O exercício da democracia é que teria levado ao grande escândalo de separação entre eles – separação da qual nasce o filosofar - ao promover uma “evolução da natureza do logos” (tal como considera Christophe Rogue). Platão relata nas Leis um tempo em que logos e ser eram unos apresentando num sonho o tempo perdido em que os pastores das montanhas, os sobreviventes do dilúvio, ao falar, diziam exatamente o ser. Em alguns textos gregos o logos por vezes é apresentado como um dom dos deuses, embora nos deuses o logos permaneça unido com o ser. De qualquer modo, o uso do dom da linguagem é um problema relacionado com a política por sua própria natureza. No mito relatado por Protágoras, a linguagem não só é um dom divino, mas também um dom que nasce relacionado com a arte da política. A doação da arte da política aos homens é a “solução definitiva” encontrada por Zeus para o risco de extinção da espécie humana que, por confusão dos próprios deuses, teria ficado despida de outros dons animais de defesa. Se os homens decorrem de um erro divino, a distribuição do pudor e da justiça apresenta-se como a melhor remediação deste “erro”. Zeus teria sido complacente ao perceber que sem o dom da política os homens jamais poderiam sobreviver, pois, na medida em que só unidos podiam se defender, sem a política acabariam por se violentarem uns aos outros e extinguiriam-se por conta própria.

É pela necessidade de estarem em comum unidade que tal dom igualmente teve de ser comum: diferentemente de todos os dons que os homens receberam, o pudor e a justiça não poderia ser distribuído desequilibradamente entre os homens. Tais dons se realizariam através do logos, dado que a construção da vida política passa pela linguagem . Trata-se de um reconhecimento do logos na política num princípio da democracia: todos devem poder falar. E é através do uso da linguagem que se realiza a arte da política.

Mas a política pela democracia cai, entretanto, numa espécie de arapuca que ela mesmo cria. Pois se é através da política que se deve decidir e realizar o que é bom para a pólis, o uso reiterado da linguagem no modo democrático gera um tal descolamento do logos que a pólis acaba por se guiar não mais em vista do bem público, mas do melhor discurso enquanto techné. A busca da verdade una exercitada por Platão será uma tentativa de evitar os desvios da pólis do que é justo, moral e bom em decorrência de melhores técnicas de retórica. Politicamente podemos dizer que este desafio que a armadilha democrática sugere está presente ainda hoje. Afora a solução de Platão, que acaba por sugerir um governo não democrático, mas guiado por filósofos, cabe-nos ainda perceber, pelos trilhos que ele percorre instigado por este problema, como a discussão filosófica da verdade e do logos, em um esquema ou não de adequação, tem profunda relação com o modo que fazemos - e o modo que desejamos fazer - política.

Se a linguagem é neutra, e assim se (re)afirma no exercício democrático, podendo ser utilizada para defender opiniões opostas, para Platão, cabe à filosofia ser a linguagem normativa que deve realizar a união entre o que é ético e o que se diz que é ético. Platão realizará a filosofia neste papel diferenciador das outras construções da linguagem dando sequência à insistência de Sócrates em mostrar a diferença entre saber e saber falar. A democracia é a pretensão de que todas as opiniões são legítimas desde que saibam falar. Na democracia saber falar basta para todo saber e Sócrates defendeu o exato contrário: o saber falar é a ruína do saber na medida em que bloqueia a busca do saber verdadeiro pela própria pretensão de que já se sabe. Platão irá argumentar que a cidade ébria de logos se torna mais suscetível a se levar por tiranias, o que seria um desembocamento contraditório da democracia.

Sócrates argumenta que a existência do saber especializado demonstra a possibilidade de o saber estar em um e não em todos. Seu argumento é reforçado pelo próprio fato das assembléias democráticas atenienses por vezes buscarem opiniões dos técnicos para decidirem sobre determinado tema. Se a própria democracia reconhece por vezes a superioridade da techné, por que considerar legítimas as opiniões da multidão em detrimento do saber especializado? No diálogo com Protágoras, Platão, através de Sócrates, reconhece uma techné da logos justamente para inverter a pretensão da legitimidade do falar da multidão. Enquanto o sofista Protágoras defende essa pretensão democrática no argumento de que a logos pode ser ensinada a qualquer um, Platão apresenta-se contra a democracia justamente pelo mesmo motivo: se a logos é uma techné, um saber especializado, deve-se recorrer não à logos da multidão, mas ao especialista. E, considerando que toda techné deve ser aplicada a fins determinados e que os fins da política é o bem da polis, então deve-se recorrer ao especialista em adequar a techné – instrumento – aos fins que se pretende.

Platão irá admitir, assim, uma techné da logos, mas de modo diferente do sofista Protágoras. O verdadeiro saber falar para Platão é o uso da logos em acordo com o ser. Admitindo a arte do falar, o logos como techné, cabe estabelecer critérios para este saber – visto que se diferencia da empiria – e relacionar esta techné a fins específicos. Daí Platão evocar na República a discussão de tais fins como dados dentro ou fora da própria techné e defender, por conseguinte, uma hierarquia de saberes e a existência de um saber supremo que estabelece os fins aos demais. Este saber supremo seria uma techné que deve dar razão às outras technés: a filosofia. O acordo com Protágoras contribui para a justificação de um governo dos filósofos: estabelecendo o logos como techné, pode-se afirmá-lo como devendo ser objeto da filosofia.

Devido à cisão entre linguagem e ser, há diversas sugestões da logos como techné além da de Platão, que são exatamente aquelas contra as quais ele se levanta e que, por isso, são apresentadas nos seus textos. Enquanto Platão está preocupado com um discurso que diga o ser, os discursos de aparência se preocupam com a utilidade do logos segundo o favor do momento. A retórica é o discurso que se esforça para agradar a multidão e é a técnica mais direta de poder. A sofística e a erística já se arrogam o dizer do ser, o que se demonstra ainda mais perigoso para a filosofia, pois embora se pautem em recursos, demonstrações e contradições inerentes à própria linguagem, tais discursos apresentam a pretensão de adequação a um saber universal e de conexão entre o logos e o ser do mesmo modo que a filosofia.

A aparência de saber, a racionalização vã, a falta de rigor nas coerções da linguagem que vencem e refutam sempre, são denunciados por Platão não só por não conduzirem a nenhum saber, mas também por serem responsáveis na geração de uma decepção. Tal decepção seria fonte de ceticismo e relativismo. Platão não se convence pela idéia do homem como medida de todas as coisas, ainda que sua idéia de uno em suas obras de maturidade cedam na ontologia do inteligível ao estabelecer maior relação deste com a sensibilidade. A mudança da concepcão do dualismo ontológico por Platão não irá em nenhum momento significar a desistência de dizer o ser. Platão não se contenta com a linguagem como mero instrumento de designação – indicação – das coisas do mundo sensível. Também a sensação de cada um sendo diferente uma da outra não estabelece diferentes realidades, pois se todos os discursos forem verdadeiros e não houver mais possibilidade de verdade, a idéia de realidade deixa de existir. Platão nega a idéia do homem como medida de todas as coisas como auto-refutável: se todos os discursos são verdadeiros, também o é aquele que diz que o homem é a medida é falso.

Independentemente de como os diferentes pensadores localizarão a questão da linguagem e do ser, cabe uma reflexão importante que herdamos de Platão acerca do uso do logos que se situa nos mesmos motivos que impulsionaram Platão em sua filosofia. A linguagem no mero exercício do falar deve ter legitimidade para estabelecer o que é bom para todos? Se não, o que determina que não se dê um mero exercício do dizer (considerando todos os perigos das diversas technés do logos) em nossa democracia? Aqui, a teoria (se encontra com a) prática.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Lei ficha-limpa: a negação da democracia (texto atualizado)


Admira-me ler matérias sobre o caso ficha limpa com pretensão de objetividade, quando já sabemos que o jornalismo íntegro deve se pautar pelo posicionamento claro.  A aplicação do ficha limpa nos termos da idéia que ele encerra não é nova. A emenda constitucional nº 1 e a Lei complementar nº 5 feitas pela ditadura militar inauguraram esta “grande idéia” de cassar direitos políticos e proibir a elegibilidade de alguém julgando sua vida pregressa, ou seja, sem o trânsito em julgado da sentença condenatória. A lei do ficha limpa pode vir a ser - se já não é - uma das formas mais eficazes de coibir a disputa eleitoral dos cidadãos por simples discordância política e ainda de reforçar o caráter de classe da democracia (economicizar ainda mais a política) - visto que os que não puderem "comprar"  o tal colegiado de juízes estarão fora da disputa.

A lei do ficha limpa não é de modo algum reforço da democracia, pois esta supõe, por princípio, a isonomia e a possibilidade de voz a qualquer cidadão, independentemente da sua vida pregressa. Aliás, os gregos atenienses iam bem mais longe, pois até os "erros" cometidos pelos cidadãos em caráter privado eram deixados de lado quando o assunto era o exercício da vida pública na política democrática. Ficha-limpa é a negação do princípio de que cabe aos cidadãos de qualquer formação social, educacional ou profissional - e não a juizes especialistas -  fazer as escolhas de quem serve e de quem não serve para a vida pública. Princípio este que (re)põe a democracia como participação real do povo na vida pública e não a delegação deste exercício político - que deve ser estimulado e aprendido pela própria reiteração da ação de participação - aos "especialistas". No sentido grego, portanto, o ficha limpa em nada reforça a democracia, muito pelo contrário.


No sentido atual, em que pela modernidade já se misturou a economia no próprio exercício da política, e as instituições não se resguardam da corrupção exatamente pela distância do povo da participação efetiva do "cuidar do bem público", menos ainda podemos dizer que a lei ficha-limpa contribui. A lei estabelece e estimula exatamente um maior afastamento em relação a este cuidar, ainda que o movimento pela criação e aplicação desta lei demonstre ser o contrário. A contradição aí é inerente: exatamente a aproximação do povo da vida pública, a preocupação com o cuidado das instituições comuns se estabelece na apresentação de um projeto que justamente retira do próprio povo o "cuidar do bem público". É como se negar livremente a possibilidade de exercício da liberdade. (Não poderia deixar dizer que isto é típico do deste sistema capitalista, pois nele mais que nunca reina a máxima contraditória liberdade = não liberdade). Será que o exercício da cidadania e participação democrática só pode se dar dessa maneira que nega a si? Estaríamos tão carentes de ver/estabelecer uma participação efetiva dos cidadãos na vida comum que devemos concordar (e além do mais, exaltar) uma participação que clama por ser não-participativa, não responsável? Não tenho ilusões de que tudo isso não seja sintomático do próprio capitalismo. Mas digo aqui do ponto de vista daqueles que não concordam e não argumentam nestes termos. Digo em termos de política no sentido democrático, de democracia enquanto conceito e definição. A lei do ficha-limpa encerrada nestes termos de política clássica em si já seria absurda.

Mas como mencionei a modernidade, tenho ainda que acrescentar o argumento nos termos de crítica no próprio capitalismo. Neste sentido a lei ficha-limpa é reforçar/estimular a elitização eleitoral. Na medida em que é fato que sob esse sistema as instituições são altamente corruptíveis, delegar a um grupo de 3 juízes (no caso 2 já são maioria) o poder de acatar ou não denúncias de corrupção sobre um cidadão que queira disputar as eleições é, no mínimo, facilitar que a disputa favoreça os mais ricos. Pois, se já hoje a disputa favorece os mais ricos, isso ocorre a nível de financiamento das campanhas eleitorais. Mas o ficha-limpa facilita (barateia os custos) para os mais ricos possibilitando que se elimine o adversário na pré-disputa, já o retirando do páreo. Denúncias infundadas + Dinheiro + Juízes corruptíveis viram receita certa para vencer o adversário definitivamente, visto que o povo como juiz sai de cena através da lei. E - voltando ao sentido grego, conceitual - não deveria ser o povo o dificultador da não realização da democracia plena pela própria presença popular na cena da escolha?

Talvez as distinções entre esquerda e direita estejam mesmo matizadas. Mas se ainda é possível falar nelas - e eu sou otimista justamente por ainda as considerar válidas a ponto de demarcá-las aqui - há algum adjetivo que não consigo encontrar para denominar o que é a esquerda apoiar uma lei como esta que tem claras conseqüências - de caráter de classe - de maior elitização das instituições públicas. Ingenuidade? Retórica? Alienação? Oportunismo eleitoral? Não sei mesmo como qualificar o fato da esquerda apoiar este projeto. Não tanto por relacionar a esquerda com a democracia (relação que demonstrou-se historicamente não teoricamente e praticamente necessária), embora eu concorde com essa união de maneira muito particular, mas por relacionar a esquerda a uma luta a favor dos menos favorecidos.


 Na verdade,  se  o ficha limpa é um projeto de natureza não democrática pode-se afirmar sem erro: é de natureza totalitária, tirânica ou, no mínimo, oligárquica. E, por isso, destino esse texto, se não tanto a toda a esquerda, mas pelo menos àquela que lutou contra a ditadura. O que vejo hoje é que o ficha-limpa é exaltado tristemente até mesmo pela esquerda que tanto lutou pela queda do regime militar. Questiono: a luta da esquerda  é essa?  Trocar o regime militar pelo regime dos que podem comprar 2 juizes na guerra política da acusação sem provas? Transferir a decisão das questões políticas do sufrágio universal para o judiciário enquanto instituição comprovadamente corruptível? É essa a "democracia" pela qual a esquerda tanto lutou?

Apesar das polêmicas geradas pelo meu texto anterior, o que me fez reescreve-lo com mais calma na exposição dos meus motivos de ser contra o ficha-limpa, seria muito proveitoso ver opiniões que queiram me convencer do contrário. Deixo abaixo alguns links de bons artigos sobre o assunto.



Aguardo, sinceramente, opiniões que tentem mostrar que o ficha-limpa seja democrático ou não elitista.

Voilà!

sábado, 27 de março de 2010

Algo sobre Rousseau

Resolvi tentar publicar algum artigo meu. E não é que aceitaram? Pra não dizer que não falei de Rousseau...
http://www.revistaindice.com.br/julialemosresumo.htm