sábado, 27 de março de 2010

Algo sobre Rousseau

Resolvi tentar publicar algum artigo meu. E não é que aceitaram? Pra não dizer que não falei de Rousseau...
http://www.revistaindice.com.br/julialemosresumo.htm

sexta-feira, 12 de março de 2010

China: primeiras impressões

Os dias andam corridos e sem inspiração ou, simplesmente, vontade de escrever para o blog. Como a Lian é minha guardiã de coisas que começo e não dou continuidade, ela sugeriu que eu postasse algumas impressões  que tive e registrei durante meus primeiros dias na China, em janeiro. Então, para quem ainda não leu, aí vai...

"Janeiro de 2010 - China: primeiras impressões

Há alguns dias desembarquei na grande China, ou “Império do meio” e alguma coisa, como parece estar escrito nos ideogramas...

Desde que nasci meu pai fala da China como o grande país do futuro. Ele morou em Beijing durante um os anos de chumbo do Brasil e os ares da revolução cultural chinesa. Ele aprendeu um pouco do mandarim e táticas de guerrilha para lutar pela democracia em seu país natal. Desde então em tudo o que vai fazer tenta incluir a China no meio. Lançar minha irmã como cantora no ano novo da China, mandar minha outra irmã, Tati, estudar um ano na Universidade de Beijing, ler Mao Tse Tung quase todos os dias e, nos últimos anos, fazer comércio. China pra lá, China pra cá, todos da família já haviam estado aqui em algum momento, menos eu. Agora chegou a minha vez!

Pela previsão do tempo, -16 graus Celsius, confesso que fiquei temerosa de vir. Mas não resisti à oportunidade, claro. E ainda bem! Por mais que tenha ouvido falar sobre a China durante vários anos, visto algo em filmes, documentários e livros, não há como descrever o que esse país é. Minha irmã Tati talvez tenha utilizado a melhor frase nessa tentativa: “É um outro planeta!” Só agora consigo compreendê-la bem! Tantas impressões erradas, pequenas diante de tanta grandeza, tanta falta de imaginação e de possibilidade de pensar em algo assim... Não sei bem o que dizer, e como dizer, sobre tudo o que estou vendo nestes poucos dias por aqui. Vou tentar escrever um pouco sobre as primeiras impressões. Nada muito compromissado, apenas como turista completamente perplexa mesmo, que é como me sinto neste momento!

Ao desembarcar em Beijing nem acreditava que havia chegado. Tanto tempo dentro de aeroporto, avião, que nem mesmo o luxo de uma viagem como essa consegue impedir o imenso cansaço. E a sensação de que realmente se está indo para o outro lado do meu mundo! Pegar malas, taxi, chegar ao hotel, passar pela confusão do fuso horário... E ainda manter um grande sorriso por dentro pela surpresa a cada passo: China!

Após o alívio em se descobrir que não só não morreremos de frio como ainda iremos gostar do clima “refrescante”, a verdadeira estadia começa. Aqui o céu está o tempo todo cinza, acho que pela mistura do frio com a poluição. Mas a suntuosidade de Beijing não dá prá esconder.

Os prédios aqui são grandes, grandes e bota grande nisso! Diferentes, modernos, vistosos. Cada um dá vontade de parar pra tirar uma foto, mas não caberia muito bem no quadradinho. A arquitetura é bem misturada e às vezes muito maluca e diferente de tudo, tudo o que já vi. São Paulo vira apenas mais uma cidade diante da grandeza de tudo isso aqui. As avenidas são quase todas muito largas, lembrando um pouco as de Brasília. Tento comparar, mas é bem difícil.

Aqui tem grandes shoppings, mas são muito interessantes e chamam atenção pela variedade . às vezes penso que não deve ter moda por aqui, pois tem de tudo, pra todos os gostos possíveis e inimagináveis e de muita qualidade e também luxo. Quando minha mãe veio em 1994 só vendiam água em estado quase fervente, não se encontrava água gelada pra beber. Hoje a maioria das coisas que vejo por aqui não se encontra no Brasil. Pelo menos não com tanta variedade e qualidade. Fomos a shoppings populares de coisas bem baratas e nos mais luxuosos. O último que fui hoje deixa a grande Galeria Lafayette de Paris bem simplória. Não só falando em grandes marcas consagradas da moda européia, mas em outras novas e bem refinadas.

Nos shoppings populares, que é onde se deve comprar de verdade, temos que pechinchar bastante. Uma banca atrás da outra e, quando paramos pra olhar alguma coisa, as chinesas vendedoras já se aproximam falando em bom inglês o quanto queremos pagar. Melhor não perguntar a elas o preço, pois a partir de então elas não irão desistir mais. Nos seguem, nos seguram, nos puxam a roupa, não nos deixam ir até fechar negócio. E a oferta é grande!!! Me parece que a lei é aumentar um zero a mais no preço. Quer dizer, se elas dizem que um tênis custa 250 yan é porque podemos comprá-lo por 25 yan, desde que pechinchemos bastante. E vale a pena. Pois a quantidade de coisas que se pode encontrar de qualidade de réplica de marcas conhecidas é enorme. E de coisas bem chinesas e muito lindas também. Bolsas, chapéus, camisetas, tênis, óculos, carteiras, etc, etc....

No primeiro dia que chegamos fomos a um mercado, na verdade uma espécie de feira. Ficamos surpresos com a variedade de comidas estranhas. Algumas coisas nunca tínhamos visto na vida, algumas eu nem sei bem o que eram e outras até conhecíamos, mas de um modo muito diferente. Desde que entramos neste mercado até hoje identificamos um cheiro típico da culinária chinesa. Está em todos os centros de alimentação e às vezes os perpassa. Também um sabor relacionado ao cheiro. Nos causou alguma estranheza no começo, algo que não sabemos dizer se gostamos ou não. Ontem fui com o Fernando e a Sissi comermos pizza e identificamos uma espécie de semente no tempero e descobrimos daí a origem do cheiro! Sissi disse-nos que é uma pimenta preta, mas não sei qual o nome disso no Brasil. Mas agora sabemos pedir quando não queremos esse tempero, o que facilitou um pouco nosso paladar!

Tenho que parar um pouco para falar de Sissi. Ela é filha de uma amiga do meu pai, que é intérprete, e morou dois anos em Portugal. Ela fala um bom português e foi nos buscar no aeroporto e nos ajudar com tudo mais. Sissi já foi chegando bem despachada, como se nos conhecesse há anos. E essa foi a impressão que tive dela, o que nos trouxe uma rápida intimidade. Ontem eu e Fernando resolvemos sair com ela ao final da tarde e ela agora anda abraçada comigo o tempo todo. Abraçada mesmo, às vezes até cola o rosto no meu! Sissi me lembrou outras chinesas que conheci através do meu pai no Brasil e me levou à certificação de uma impressão já antiga de uma pureza de sentimentos que eles possuem. Nao fazem muita sala para se aproximar quando gostam da pessoa e expressam de modo muito espontâneo e intenso essa amizade. Não temem um sentimento de frieza do lado oposto. Falei com Sissi que os chineses eram um povo muito receptivo e aberto, diferente dos europeus. Ela não concordou, disse que são bem fechados e fiquei pensando nisso. Talvez sejam mesmo fechados no sentido de serem meio “carrancudos” e desconfiados num momento inicial. Mas quando por algum motivo se identificam com a pessoa estão dispostos a oferecer a ela a amizade mais pura e sincera, que não pede em troca.

Posso estar errada, mas vendo os programas de televisão chineses e o senso de humor que eles têm, percebo uma certa ingenuidade, o que me soa mesmo como uma pureza de sentimentos. Nada idealizado ou perfeito, simplesmente diferente de tanta malícia que estou acostumada a ver no Brasil e em tantos lugares. Aqui os filmes e “novelas” são muito singelos e com pouco preconceito no sentido de piegas, essas coisas. No clipe da MTV chinesa o garoto chora quando a menina coloca uma flor com alfinete no seu casaco. Coisas assim...

Bom, vou ficando por aqui e vou tentar escrever um pouco todos os dias pra não acumular muita coisa. Ainda nem comecei a parte das visitas turísitcas/históricas. Imagine só...Mas cito abaixo algumas curiosidades até agora e posto algumas fotos.

CURIOSIDADES BEIJING:

- Os taxistas quase todos ouvem novela chinesa no rádio e é muito engraçado, mesmo sem entender o que o locutor está dizendo

- Os taxistas cobram sempre 1 yan a mais do preço da viagem devido ao custo do óleo do carro

- A maioria dos mictórios públicos femininos não tem vaso sanitário e sim mictório “feminino”, ou seja, buraco no chao!

- Os chineses são muito honestos no comércio cotidiano, quer dizer, sempre correm atrás para devolver o troco, não gostam muito de gorjetas, essas coisas. Ah, e os taxistas não ficam dando voltas mesmo sabendo que somos estrangeiros.

- A cidade é extremamente limpa, não se vê lixo no chão mesmoooo!

- Todas (ou quase) as avenidas possuem ciclovias

- Durante o inverno eles tampam um determinado tipo de árvore. Colocam um “capuz” de pano em cada uma delas, o que fica muito engraçado, parecendo múmias nos jardins!!!

- Alguns sites aqui são proibidos, barrados pelo governo. Não dá pra entrar no facebook ou you tube, por exemplo. Ou mesmo no meu blog, que é blogspot!

- Existe suco de mirtilhas!!

- O modo como contam o dinheiro é único.

- Pode parecer óbvio, mas tenho que dizer: os chineses são completamente diferentes uns dos outros, acho até que consigo delinear alguns tipos de grupos de traços bem diferentes.

- Não consegui achar shoyo nos restaurantes ainda, embora deva ter, é claro!"
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 A quem interessar, postei algumas fotos da viagem aqui > http://picasaweb.google.com.br/lemos.julia

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Intervalo...

O ano já começou cheio de surpresas e muitos planos. Uma viagem incrível me espera e ainda tenho uma prova de doutorado pela frente. Talvez fique um tempo sem blogar, mas não abandonarei esse espaço. Essa também é uma meta para 2010!!!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Via láctea dançarina!


Liberdade criativa em exercício é capaz mesmo de parir uma estrela dançarina. O caos da liberdade coletiva então... Deve parir uma constelação!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Capitalismo, socialismo e comunismo (II)


Vou falar um pouco sobre tecnologia pra falar de tempo e liberdade. Marx me faz pensar em respirar ar novo e em liberdade mesmo tocando num assunto que a mim, particularmente, é estranho e parece distante: tecnologia. Liberdade e tecnologia: qual seria a relação?
Ao que parece, desenvolvimento de tecnologia para Marx é desenvolvimento de possibilidades de libertação do homem. Libertação da obrigatoriedade de se gastar boa parte do tempo na produção de elementos para satisfazer necessidades. Necessidades estas infinitas, pois culturalmente e diariamente construídas. Para Marx o aprimoramento da tecnologia não é mérito daqueles que a financiaram. É um ganho da humanidade como um todo, parte de uma capacidade especificamente humana - já que o homem na atividade prática não só se aprimora como também aprimora o modo de fazer tal atividade. A humanidade aprimora a tecnologia levando o homem a precisar de menos tempo para produzir. Menos tempo para produzir itens necessários deveria levar a mais tempo livre para se fazer o que quiser. Cada um tendo boa parte do tempo livre para gastar como bem queira é a verdadeira possibilidade de exercício das liberdades diversas. Homens exercendo suas liberdades provavelmente são homens gastando mais tempo desenvolvendo novas necessidades, novos prazeres, novas vidas, novas humanidades.

Hannah Arendt fez uma crítica a Marx afirmando uma intenção deste de reduzir os homens a meros animais laborans. No meu entender ele busca exatamente o contrário, pois trata não da liberdade para a maioria exercer o labor, mas sim de reduzir o tempo necessário das atividades para produção material a fim de que se reste mais tempo a todos para exercer o saber sem a segregação da práxis. Mas se o capitalismo contribui por um tempo para o desenvolvimento das forças produtivas, ele também gera possibilidades de relações de produções novas, que façam melhor uso das novas forças produtivas aprimoradas até então.


Os limites do capitalismo se encontram exatamente nas relações de produção - que já não servem ao aprimoramento da tecnologia e já não permitem o usufruto do tempo para que todos exerçam suas liberdades - pois é apropriação do tempo na sua roupagem de valor de troca, mercadoria, fetiche, lucro, em suma, apropriação não só exploradora de alguns, mas aprisionadora de toda humanidade.

Recentemente Mike Palecek, em um artigo para um site de discussão marxista, trouxe algumas informações que achei muito interessantes por demonstrarem que o capitalismo parece ter adentrado de fato numa fase em que não mais contribui para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Se antes podíamos admitir que era um sistema que propiciava melhor desenvolvimento das forças produtivas, ainda que com relações de produção desumanas, hoje nem mesmo tal desenvolvimento pode ser usado para o argumento, já insuportável, das vantagens de se manter a exploração de 2/3 dos habitantes do planeta.

Crescemos com a imagem do capitalismo como sistema que traz inovação nos campos tecnológicos e científicos devido à combinação de competição e lucro. Essa receita parecia ser infalível para o estímulo a novos inventos medicinais, tecnológicos, etc... O neoliberalismo propagandeou o livre mercado como o melhor campo para o estímulo ao avanço da ciência.

Palecek afirma que tal concepção hoje não se passa de um mito e chama atenção para alguns aspectos:


1. A descoberta recente de um fóssil importantíssimo para pesquisas acerca da teoria da evolução que desde 1983 foi privado dos estudos científicos devido ao fato de ser propriedade de um colecionador, demonstrando a transformação desses tesouros históricos em meras moedas de barganha em mercados para proprietários milionários.

2. A falta de medicamentos para combater a pandemia da AIDS, principalmente na África, demonstrando a distribuição dos remédios relacionada especificamente ao lucro. O lucro com a existência da AIDS, através da venda de amenizadores dos sintomas, também seria um desestímulo para a busca de vacinas eficazes contra a doença. O mesmo também ocorre com doenças como o câncer. Palecek afirma que a descoberta da molécula DCA como eficaz para a morte de células cancerígenas na University of Alberta não foi um estímulo para pesquisas privadas diante da impossibilidade de se patentear o DCA. A necessidade de se obter lucro com o desenvolvimento de novos medicamentos muitas vezes acaba por impedir a descoberta de desenvolvimento de possíveis tratamentos eficazes. A mão invisível e o estado mínimo do neoliberalismo não são mesmo um conto de fadas.

3. O boicote do desenvolvimento do carro elétrico, demonstrado no documentário "Who Killed the Electric Car". A tecnologia de bateria NiMH, por hidrogênio, teria sido patenteada pela compania de petróleo Chevron, que recusa a venda da tecnologia para estudos científicos e permite apenas a produção de carros híbridos.

4. A rapidez do governo americano, temeroso dos nazistas, no desenvolvimento da tecnologia de fissão nuclear e construção da bomba atômica, em detrimento do setor privado.

Claro que a bomba atômica não foi uma descoberta para aprimoramento da humanidade, mas o desenvolvimento da tecnologia de fissão nuclear abriu caminhos para novas formas de uso de energia, com menor exploração do meio ambiente.

O que importa salientar neste artigo do Palecek é como a competição possui uma dupla face. Pode, por um lado, servir como motivadora do desenvolvimento de novos produtos e, por outro lado, servir para impedir de virem a tona novas descobertas importantes. Se por um lado a posse de patentes pode ser uma maneira eficaz de estimular novos estudos e avanços ela também pode ser uma barreira na medida em que coloca no escuro confidencial diversas descobertas, impedindo um grupo de colaborar no projeto do outro e avançarem a ciência a favor da humanidade.


As crises no capitalismo têm demonstrado que o neoliberalismo é sempre descartado e o sistema público é acionado quando se trata de buscar soluções amenizadoras. A importância de um planejamento estratégico que vise todo o conjunto da sociedade é bastante valorizada quando o capitalismo precisa de um fôlego para continuar existindo. O que me faz lembrar, inevitavelmente, a experiência soviética.

Não se trata de desconsiderar que os desejos da burocracia no sistema soviético também consistiu em barreiras diversas e nem de exaltar um modelo como perfeito. Mas de salientar em que medida alguns aspectos podem ser tomados hoje como exemplos de novos paradigmas na construção de uma realidade nova. Sem o velho chavão de que o socialismo simplesmente não deu certo, podemos citar muitos fatores de sucesso extremamente relevantesdo ponto de vista estrutural.


Uma economia planejada nacionalmente como foi a soviética pôde fazer com que um país semi-feudal chegasse a concorrer em pé de igualdade no que tange à inovações tecnológicas do ícone capitalista mundial. O lançamento do primeiro satélite artificial na órbita da Terra, o Sputinik 1, foi realizado pela URSS em 1957: a primeira vez que o homem foi ao espaço e que se construiu uma sede espacial. Astronomia, química, matemática, os russos conseguiram levar pra bem longe as descobertas científicas através de um caminho alternativo à competição. Construíram um modelo de desenvolvimento de todo o seu território, sem o risco de concentrações urbanas ou desigualdades regionais excepcionais. Priorizaram a criação de possibilidades para expansão do sistema educacional, estatizando-o. Estatizaram também as patentes e os segredos coorporativos que obstruem avanços da ciência.

Sobre as diversas atrocidades que ocorreram  não é preciso citar. Os publicitários do neoliberalismo já espalharam por aí. Personalismo, radicalismo, assassinato de cientistas, enclausuramento de idéias, liberdades e expressões artísticas, perseguições, enfim... De fato existiu a dureza de um Estado no afã de erguer todos os sucessos citados anteriormente, resistir e vencer o nazismo e vencer, ainda, as ilusões do sistema de mercado impregnadas em todo o resto do mundo.

Mas pode-se dizer que o socialismo não funcionou por conta da experiência soviética? O capitalismo funciona? O que é socialismo? Que mundo queremos? Se as opiniões do velho Marx ainda nos valem, a pergunta que se coloca agora é o que fazer com tanta tecnologia alcançada. Quais as possibilidades de sociedade a tecnologia nos coloca? Quais as relações de produção e de vivência humana somos capazes de construir? O que o momento nos permite começar hoje?

Eu também não sei as respostas. Mas tenho um sonho.

(Continua...)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uva e arte


Ontem à noite senti um cheiro gostoso de uva niágara na cozinha logo que cheguei. Foi quando o natal começou. Lembranças das expectativas de infância para passar a festa em São Paulo, com a minha família por parte de mãe. As celebrações sempre aconteciam na casa do meu avô Arnaldo, um ator magnífico e pessoa única. Por ser essa minha família cheia de artistas, a noite do natal sempre foi o momento de ver uma prima declamar um poema, o outro tio apresentar uma esquete, o outro contar piada, a Maíra cantar e os primos, juntos, apresentarem uma pecinha de teatro. Hoje não há mais tanta exaltação. Algo simplesmente morreu com o tempo. Mas viajo amanhã cedo pra reencontrar essas pessoas lindas que me ensinaram a ter necessidade de respirar arte. Um amor que se exerce apenas no natal, quando nos encontramos. E que dura o ano inteiro, pois já está impregnado em mim desde a infância em forma de música, cores, drama e poesia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Capitalismo, socialismo e comunismo (I)




A queda do muro de Berlim ou o fim da URSS nunca me pareceram boas justificativas para a afirmação de que o socialismo e o sonho por um mundo melhor tenham chegado ao fim. Acho prematuro historicamente e simplificador afirmar que o socialismo morreu ou comprovou sua inviabilidade por suas falhas diversas nas experiências vividas. Também me impressiona a suposição que transparece nas reticências que imagino ter na afirmação de que o socialismo não deu certo: a de que o capitalismo sim teria se comprovado como um sistema econômico-político de sucesso. Nunca se afirma, ao descartar a possibilidade do socialismo, que o capitalismo também não deu certo. Gostaria de acreditar que a exaltação ou apatia em relação ao contexto capitalista se desse somente por aqueles que de fato lucram com esse sistema. Mas tenho que admitir, infelizmente, que a descrença no socialismo como alternativa parte até mesmo daqueles que se indignam com as conseqüências de uma organização social que se pauta sempre pelo capital.

Diante desse fato, acho que a primeira questão que deveria ser levada em conta não é a alternativa ao capitalismo e sim a realidade dele. Alguém em sã consciência poderia concordar que este sistema que mantém 2/3 da população na miséria deu certo? Que é um sucesso? A não ser aqueles que estão cegos por sua individualidade de vantagens ou pelas ideologias próprias do mercado, ninguém poderia. Estaríamos então diante de uma única afirmação passível de ser consenso: bom ou não, o capitalismo se instaurou e se firmou. Solidificou-se de tal forma que parece loucura acreditar que irá simplesmente desaparecer tal como os sistemas anteriores. Na minha opinião só mesmo o velho Marx pode demonstrar que esse devaneio não é ilusório e que no capitalismo tudo que é sólido, um dia, começa a se desmanchar no ar.


Poucos como Marx acreditaram tanto na necessidade do alto desenvolvimento do capitalismo no mundo para que se tivesse um dia uma organização econômica e política mais humana e menos animal. Embora Marx tenha defendido, em uma carta-resposta ao seu crítico Annenkov, que talvez nem todos os países precisassem passar pelo capitalismo, ele considerou que a existência deste sistema por muito tempo no planeta era não só a realidade possível como também indispensável a fim de desenvolver diversos aspectos que um dia tornasse a si mesmo (ao próprio capitalismo) completamente desnecessário e também insustentável. Esse posicionamento de Marx gerou tantas interpretações quanto são as correntes de esquerda, centro ou direita que se distribuíram no mundo: Eduard Bernstein foi o pai da social-democracia, Kautsky pai do economicismo, Lênin da esquerda política revolucionária, Stálin da ditadura tecnicista, Trótsky do internacionalismo, Gramsci da transformação pela educação, Korsch do movimento autogestionário, etc, etc, etc. Embora todas essas correntes se encontrem em algum ponto, elas defendem práticas tão diversas que me levam a pensar como é possível afirmar que o socialismo simplesmente não deu certo. Não seria preciso distinguir, antes de mais nada, de que tipo de socialismo está se falando ao se confirmar sua falência? Além do mais, considerando que esteja se tratando da experiência soviética, será mesmo possível dizer que não deu certo ou não teve sucesso simplesmente porque foi engolida pelo capitalismo?

Trata-se da compreensão que se tem do que é, afinal, sucesso. O velho jogo de linguagem de que falou Wittgenstein pode justificar tanta confusão que, na prática, leva a decisões e posicionamentos políticos lamentáveis. Se falarmos em sucesso do ponto de vista de permanência temporal ou vitória sobre o capitalismo mundial, até podemos concordar. Mas antes é preciso dizer de que tipo de sucesso se está falando. Porque o jogo de linguagem para este significante irá variar nas diversas complexidades sociais: suprimento de necessidades sociais a nível animal, suprimento de necessidades além das animais, exercício da liberdade, participação política, qualidade de vida, desenvolvimento da ciência, tecnologia, nível educacional, interação com o meio ambiente natural, dentre outros.

Marx não defendeu que o Estado como aparelho político de sustentação da burguesia terminaria com a revolução porque seria destruído, mas sim que tal aparato simplesmente desapareceria com o tempo e daria lugar a um outro sistema, o comunismo. Como em sua opinião esse desaparecimento seria gradativo, chegaria o momento em que uma revolução far-se-ia necessária no intuito de acelerar o processo. A revolução não seria o fim do capitalismo e início do comunismo, mas sim a passagem para um sistema entre sistemas. O socialismo seria como um sistema de passagem, em que hora se pareceria mais capitalista e hora se afirmaria mais como possibilitador do comunismo. Não há ditadura do proletariado no comunismo de Marx, já que não há classes neste sistema.

Penso que as diversas discussões em torno da obra de Marx se dá justamente acerca do que seria tal gradação. Embora eu não tenha uma opinião fechada acerca dessa questão, considero ter compreendido em meus estudos que o ponto nodal acerca de tal gradação se dá em torno da compreensão dos conceitos forças de produção e relações de produção, mais especificamente, nos (não)limites entre tais conceitos e na forma como a superestrutura social adentra a infraestrutura por meio das relações de produção.

Podemos dizer que a experiência de socialismo no leste europeu dos últimos anos, sob determinados moldes de interpretação do que seja socialismo, sucumbiu. Quanto ao sucesso desta experiência, em comparação à Marx e ao capitalismo, é um outro debate. Falarei sobre isso no próximo texto para não ficar muito extenso.

Mas antes quero dizer algo: as minhas maiores motivações para pesquisar esse assunto são duas. Uma é social, relacionada à minha indignação com tanta desigualdade e miséria. A outra é bem pessoal, relacionada ao meu desejo de direito à preguiça, ao ócio, ao livre exercício dos prazeres, do não aprisionamento utilitarista das minhas capacidades e desejos. Embora essa segunda motivação seja mais individual, ela também não deixa de ser coletiva. A realização do ser em sua humanidade só pode mesmo se dar quando a humanidade se realizar nos seres, quer dizer, do ponto de vista humano só é possível realizar a máxima libertação e afastamento da condição animalesca quando as necessidades de comer, beber, se vestir, ter abrigo já não forem problemas que demandem tempo a ser resolvido.

Nisso Marx é apaixonante. Ele é um filósofo da práxis que trata do tempo em todos os prismas: materialidade, invólucro, valor, fetiche, exploração, desigualdade e possibilidade de liberdade na relação do homem em ação. Marx estudou a realidade, de fato, do tempo. E é o tempo que envolve, no final das contas, a possibilidade de se poder construir e dar um sentido à vida, não só à minha vida, mas à de toda a humanidade.

(Continua...)