quarta-feira, 3 de julho de 2013

Plebiscito sim!

Esse texto vai como um desabafo. Ontem à noite ouvindo a “Voz do Brasil” escutei o Dep. Federal Ronaldo Caiado (DEM) falar contra o plebiscito da Reforma Política. Seu argumento: o plebiscito vai tirar o foco das manifestações contra a corrupção. Eu nunca tinha ouvido um absurdo tão grande!!! Desviar o foco?? Um plebiscito é uma campanha constante de um assunto na tv, nas ruas, nas casas, na vida das pessoas! Como um plebiscito sobre a reforma política pode desviar o foco do debate das pessoas sobre a falência das instituições políticas?

Na verdade, é justamente o contrário. Um plebiscito é lenha na fogueira das manifestações! E, mais ainda, é o momento das mobilizações avançarem para além das críticas superficiais à corrupção e se posicionarem concretamente com um projeto de sistema político para o país. Se nós manifestantes não queremos intervir para alterar o sistema que gera a corrupção, então vamos guardar nossos cartazes anti-corrupção, porque eles são infantis. Do contrário, temos que exigir esse plebiscito. O Estado político no sistema capitalista é uma instituição alienada do povo justamente pelo fato de ser “privatizado” a cada nova eleição. Vivemos um sistema eleitoral pervertido, no qual é preciso muita verba pra campanha, para pagar marketeiros, fazer material gráfico, etc etc. Toda eleição é a mesma história: é o poder econômico quem manda. É uma disputa de quem tem mais dinheiro. E quem paga as campanhas são grandes empresários (por exemplo, máfia do transporte coletivo) que depois cobram a fatura interferindo contra as ações legislativas e executivas que deveriam ser a favor do povo.
 Pra romper com isso é preciso uma reformulação do sistema. E é preciso que seja de baixo pra cima, com o voto do povo, e por um motivo muito simples: o poder político está sob os tentáculos desse poder econômico e precisa do aval do povo para romper o que é necessário romper.

É no plebiscito, e não no referendo, que o povo indica o que deve ser feito antes de se fazer a lei. No referendo o povo pode apenas rejeitar uma lei. No plebiscito o povo indica o que quer mudar e depois o Congresso tem que fazer uma legislação de acordo com o que o povo escolheu. O plebiscito é a forma de consulta popular na qual o povo tem mais poder sobre o Congresso e por isso pode obrigar esse Congresso  a uma radicalidade de Reforma Política que jamais será alcançada se for feita por esse próprio Congresso ou por via referendo.

O momento agora é de irmos para as ruas defender a Reforma Política que queremos ver aprovada NO PLEBISCITO e não de lutar para que eles decidam sozinhos quais devem ser as medidas de mudança estrutural desse sistema. Tem muita gente de esquerda aí contra o plebiscito que repete o mesmo argumento da direita: o povo não está preparado para votar certo. Mas sem a participação do povo via plebiscito essa Reforma Política vai ser enrolação! O pior é ver esse mesmo “povo” comprando esse discurso. Não seriam contraditórios os manifestantes que chamam este sistema de corrupto e que querem deixar para esse mesmo sistema o total controle da Reforma Política? Ora, se o Estado político está alienado do povo e sendo usado em nome do bem privado, ou bem o povo interfere para tomar esse Estado de volta ou ele continuará o mesmo. E a arma possível hoje para o povo tomar o Estado de volta é o povo decidir neste plebiscito quais as medidas para alterar o sistema em suas entranhas. O povo que optar por abrir mão de intervir nesse sistema está optando por deixar o sistema alterar por ele mesmo, o que não será possível. Sem o plebiscito as mudanças estruturais necessárias jamais serão aprovadas!!! Uma Reforma Política Popular vai resolver tudo como uma mágica? Não. Mas sem ela nem saímos do lugar. A população pode votar de modo péssimo no plebiscito? Sim. Mas sem ele, com certeza o processo já está perdido. Por isso precisamos de um plebiscito sim! E precisamos disputar o seu resultado nas ruas!

O argumento do desvio de foco é desonesto por dois motivos principais. Primeiro porque só é possível combater a corrupção profundamente se for um combate em sua estrutura, ou seja, por uma Reforma Política POPULAR. Segundo porque só é possível ganhar mais amplamente as causas em nome da educação, saúde, direitos humanos, reforma tributária e reforma agrária se atrofiarmos o máximo que pudermos o poder do sistema econômico sedento de lucro sobre o sistema político, ou seja, se tivermos uma Reforma Política POPULAR. Terceiro porque só é possível fazer uma Reforma Política POPULAR  via plebiscito. Fazer o plebiscito da Reforma Política não só não é tirar o foco como ainda é FOCAR MAIS INTENSAMENTE na essência de todos problemas.

O argumento do despreparo do povo para um plebiscito é desonesto também por dois motivos. Por um
lado, advém de uma direita que na verdade não quer uma Reforma Política profunda e sabe que se tiver plebiscito não terá como enrolar o povo. A ideia de um referendo no lugar do plebiscito tem o claro objetivo de enrolar. De acordo com a OAB*, “no plebiscito, o povo é convocado antes da criação do ato legislativo (...) No referendo, ele é convocado posteriormente, após a aprovação de uma lei, por exemplo, pelo Congresso Nacional, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta legislativa (...) Aplicando-se as
definições ao que foi apresentado pelo senador piauiense, no caso do referendo, o processo seria ‘penoso’, ‘doloroso’, ‘espinhoso’ para a sociedade. O Congresso, por exemplo, poderia ter ‘dois trabalhos’. Aprovar uma lei e depois essa mesma lei ser rejeitada pela consulta popular do referendo.” Ou seja, o referendo poderia enrolar o processo e aí sim, ir-se-ia perder o calor das manifestações de rua que ocorrem agora.

Por outro lado, o argumento contra o plebiscito também advém de uma esquerda idealista, que fala tanto em intervenção do povo, mas ao invés de defender a consulta popular e ir para as ruas defender uma Reforma Política radical, instiga a rejeição do povo ao próprio instrumento desta consulta do mesmo modo que a direita tradicional o faz.

Repito: não há como aprovar qualquer mudança estrutural sem a intervenção do povo. E o plebiscito é essa intervenção hoje. Você teria visto tanta gente debatendo desarmamento no Brasil se não tivesse existido uma consulta popular sobre o assunto? Não. Imaginemos então um plebiscito da Reforma Política no calor da luta...

Estamos num momento de encruzilhada das mobilizações populares. O plebiscito é um combustível para as manifestações, um combustível que precisamos para sairmos do debate superficial e forçar para as mudanças estruturais tão necessárias no Brasil.

*Artigo: http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/270925_artigodiferenca_entre_plebiscito_e_referendo.html

sábado, 29 de junho de 2013

Manifestos de Junho/13: algumas impressões e esperanças

Algumas impressões políticas pareciam bastante claras a mim nos últimos tempos.

PRIMEIRA IMPRESSÃO: a de que mídia há algum tempo faz uma campanha maciça contra a democracia na medida em que não politiza a crítica à corrupção ao mesmo tempo em que faz dessa crítica o centro dos problemas, transformando-a numa questão moral, não distinguindo as causas estruturais tanto da corrupção quanto dos demais problemas. Ou seja, a mídia, “à la CQC”, há muito tempo simplesmente  “arde a política no fogo do pecado”, como diz PHA. Joga tudo no saco da imoralidade pessoal para assim deixar oculta a causa da corrupção (que, acreditem, não está no fato de "uns estarem com Deus e outros com o Diabo"!) e deixarem indistintos os projetos políticos quanto às questões estruturais que prejudicam o país. Quando digo “há muito tempo” considero que desde o caso do Collor isso acontece, mas que nos governos Lula/Dilma se agravou, dado que a direita via mídia e judiciário encontrou no mensalão um modo de detonar o PT, abafando o mensalão do PSDB e sendo constante e  firme em seu projeto de construir a imagem do PT não como corrupto e sim como “governo mais corrupto da história” – um modo eficaz de dizer que as diferenças dos projetos no que tange  às questões sociais são praticamente nulas. (A despeito do Brasil no governo Lula/Dilma ter sido o único país além da China que, de acordo com a ONU, diminuiu a mortabilidade por Fome, leia-se Miséria -  em 40%. Seria uma diferença pouca???).

SEGUNDA IMPRESSÃO: a de que o governo precisava avançar para além dos grandes feitos no que tange a tirar o país da miserabilidade e partir para as reformas estruturais que todos da esquerda sonham há tanto tempo.

TERCEIRA IMPRESSÃO: a de que tal avanço estrutural estava constantemente e irritantemente sendo barrado em nome de um tal PIB para não deixar o país cair numa tal crise do capitalismo internacional que traz justamente desemprego e miséria.

QUARTA IMPRESSÃO: a de que tudo isso teria que ser pincelado por mim lendo artigos aqui e ali, ou seja, de que o governo não tem um canal de comunicação que nos permita entender o que está fazendo e porque está fazendo. 

QUINTA IMPRESSÃO: a de que isso tudo estava irritando bastante não somente a mim, mas a tantos e tantos movimentos sociais, ou seja, o governo também estava pecando na falta de diálogo direto, não mediado.

Nos primeiros dias em que vi o povo nas ruas me felicitei, tal como muitos colegas que pensavam parecido comigo: era o momento da esquerda cobrar da Dilma uma respostas às nossas expectativas para além dos avanços (enormes!!) na redução da miserabilidade. Exigir a redução das tarifas de transporte nos permitia exigir um posicionamento combativo contra o domínio do poder econômico nas tantas e tantas áreas estruturais do país. Era a ponta de lança em nome de uma guinada à esquerda. As primeiras manifestações de fato pareciam indicar isso. As esperanças renasciam.

De repente, entretanto, a coisa ficou obscura. Bastante simbólica foi a mudança de posicionamento de um dos jornalistas mais reacionários do Brasil, Arnaldo Jabor. Da crítica aos manifestantes ele então resolveu tentar pautar o movimento dizendo algo do tipo: achei que vocês fossem idiotas combatendo a máfia do transporte por R$0,20 centavos (ou seja achei que fossem idiotas combatendo o domínio do poder econômico nas questões sociais) Mas, que nada! Percebi que vocês são inteligentes: querem é combater apenas corrupção e ”sabem” que a corrupção é simplesmente o governo – e não a estrutura (ou seja, percebi que se vocês se voltarem só para a bandeira anti-corrupção e anti-governo os conservadores/capitalistas podem ganhar muito com isso!).

De repente, então, aqueles que queriam combater o domínio do poder econômico e exigir da Dilma mudanças estruturais à esquerda se viram ao lado de bandeiras conservadoras. Hein? Foi então que me lembrei de que havia esquecido da PRIMEIRA IMPRESSÃO: da campanha anti-corrupção feita de modo superficial pela mídia e que exaltava o poder Judiciário – aquele que até hoje não julgou o mensalão do PSDB e que tal como qualquer poder político do Estado capitalista é corrupto – como o poder salvador da pátria, sob a figura de um indivíduo moral Joaquim Barbosa.

O susto foi grande. Cogitei sair das ruas. Se for pra retroceder, melhor tomar cuidado. E então comecei a observar melhor. Na  verdade, apesar da mudança do Jabor ter sido também uma mudança da Globo em geral, o movimento não era completamente conservador. Pés no chão: não é só um movimento exigindo uma guinada à esquerda. E mais pés no chão: não é só um movimento conservador da direita. Não é um movimento só de pacíficos e nem só de vândalos. Não é um movimento só de pacíficos anti-vândalos, tem também só de pacíficos pró-vândalos. É um misto. É um movimento que se volta contra os símbolos do capitalismo, é um movimento que tem bandeiras conservadoras, é um movimento que detona a Globo/mídia, é um movimento que quer aparecer na Globo/mídia, é um movimento que quer a guinada à esquerda, é um movimento que quer a guinada à direita, é um movimento de apartidários anarquistas, é um movimento de apartidários fascistas, é um movimento de apartidários que nem sabem o que querem no lugar dos partidos e julgam não terem a responsabilidade de responder a essa pergunta quando combatem os partidos. É um movimento que se mascara como Anonymous que parece mais distante do Anonymous internacional que qualquer desmascarado. É um movimento cara limpa que se recusa fazer aliança com Anonymous. É um movimento de coxinhas. É um movimento de socialistas. É um movimento por mudanças.

Pés no chão é um “balaio de gatos”. Pés no chão: sair das ruas é a pior opção.

No meio desse balaio, começam a sair pautas de reivindicações. E minha impressão é péssima. Com tanta coisa urgente e necessária, as pautas se mantêm no nível da moral superficial e não da estrutura política, não da mudança profunda, nem mesmo quando trata a corrupção. E de repente a coisa começa a virar. A Dilma anuncia, apresenta e faz aprovar os royalties do petróleo para a educação e saúde. É aprovada a lei que torna a corrupção crime hediondo. E, principal, Dilma vai a fundo no que de fato pode mudar a estrutura da  corrupção: é preciso fazer uma Reforma Política!!!

E agora estamos no ponto em que separamos o joio do trigo. Como não poderia deixar de  ser, a Globo faz campanha indireta contra a Reforma Política. Depois de estimular os movimentos sob a bandeira “à la Arnaldo Jabour”, agora a Globo considera que o povo é incapaz de participar do processo: “Fazer Reforma Política é perigoso!!!” Leia-se: acabar com a possibilidade dos acordos econômicos eleitoreiros e mafiosos que permite os firmes tentáculos do capital sobre os políticos é perigoso! Os conservadores gritam na Globo através da voz dos seus cientistas políticos cheios de medo. Daqui a  pouco chamam a Regina Duarte para nos lembrar do perigo!!! 

PHA traz um temor contrário ao dos conservadores e que se assemelha ao meu: e se a Reforma Política for de novo pra gaveta??? Pela falta de comunicação efetiva, pode ser  que muitos caiam nessa conversa da direita-Regina Duarte. E então talvez não consigamos fazer essa Reforma Política. E então talvez ficaremos a vida inteira tendo que ouvir do povo cheio desse medo global continuar gritando contra corrupção por uma eternidade e a Globo cheia de poder falar contra a corrupção numa cara lavada que faz inveja a qualquer máscara do Anonymous. É que, diz PHA, “Desde 1994, a Globo controla 80% de toda a verba da televisão aberta. Nenhuma Democracia do mundo permitiria que a lei que regula a rádio-difusão não se atualizasse desde 1963. Em 1994, ela tinha 80% da audiência. Hoje, tem 45% da audiência. Mas, não faz diferença. Os 80% só os mesmos e o bolo da grana aumentou. E agora ?"

E agora? E agora que sigo com esperanças!!! Porque esse movimento nas ruas, como eu disse, não se resume a abraçar as causas do Jabor, mas também o escorraça. É um balaio de gatos e tudo pode acontecer. Não é que eu tenha ilusões de que a Reforma Política não possa dar errado, ser tomada pela direita no meio do caminho. Mas penso que o importante é, pelo amor de Deus (!), que ela leve de uma vez por todas um solavanco para começar!! E então disputemos democraticamente o seu tom! Se não for agora, não será nunca!

 E espero que o governo não precise que peçamos que se faça imediatamente a democratização da mídia!!

Como sou cheia de esperança, já parto para a campanha pela outra pauta urgente depois que garantirmos a Reforma Política. "Próxima, por favor... Reforma Agrária!”

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vamos voltar às ruas por Reforma Política e Educação!!

Do balaio de reivindicações catalisadas em torno da reivindicação da diminuição da tarifa do transporte, as que eu sempre considero principais são as que buscam atacar as causas ao invés de atacar simplesmente os efeitos. Penso que pra mudar realmente as coisas nesse país, não podemos ficar fazendo leis que se focam nas consequências e sim ir mais a fundo, entendendo as causas. Por exemplo: é importante criar leis punitivas a crimes? Sim. Mas mais importante ainda é alterar a situação concreta que induz o indivíduo ao crime. Se somos contra a corrupção devemos nos perguntar: o que causa a corrupção? Se somos contra o conflito de terras nos quais morrem tantos pequenos agricultores e índios, devemos nos perguntar: o que causam os conflitos de terra? E por aí vai. E devemos buscar as perguntas na estrutura e não simplesmente na falta de leis. Leis temos aos montes. Por que elas não são suficientes? Porque é preciso focar nas causas.

Muito mais importante do que leis permitam a condenação dos corruptos (como a queda da PEC 37 e a lei que torna a corrupção crime hediondo), é a Reforma Política. É esta reforma e não outras leis quaisquer que deve alterar a estrutura que gera a corrupção política desde o financiamento privado de campanhas eleitorais. A Reforma Política é muito mais importante contra a corrupção do que qualquer lei punitiva, porque ataca as causas ao invés de se focar nos efeitos.

Neste sentido, as medidas que a presidenta Dilma anunciou através das reivindicações foram bem melhores que aqueles 5 causas feitas em nome do movimento. Dilma destacou:

- Reforma Política (deve alterar o sistema de corrupção onde ele começa, na semente, na campanha eleitoral)
- 100% dos royalts do Pré-Sal para a Educação (educação é a base de tudo! A falta de qualidade na educação é causa de inúmeros males desse país!)
- Lei de Acesso à Informação (a transparência ao uso do dinheiro público, nos permitindo atuar também inibindo a corrupção na sua base: o ocultamento)
- Democratização dos meios de comunicação (para reverter a histórica máfia de comunicação no país e colocar o povo no poder da mídia!)
- Saúde: trazer mais médicos do exterior (ficou a desejar)

Para mim faltou sobretudo mais um essencial:
- Reforma Agrária (para democratizar o acesso à terra e demarcar urgentemente as terras indígenas)

O mais interessante é como estas medidas vão mais a fundo que as levantadas pelo movimento. Os movimentos se focaram em consequências, a presidenta se voltou para as causas. Ocorre, entretanto, que para o governo ir em frente, o povo precisa continuar nas ruas!!! Não depende da Dilma realizar nenhuma das bandeiras acima, já que precisam da aprovação no congresso. Então, é preciso o povo nas ruas! E penso que as duas primeiras que reivindicações (Reforma Política e Royalties na Educação) deveriam ser as nossas reivindicações mais imediatas! Vamos de volta às ruas!!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Flor que brota em pedra



Foi mais ou menos assim… Eram os meus primeiros dias de faculdade. Não me lembro bem em qual deles, eu achei aquela chinesa instigante. Ela me deu medo. Um pouco porque sempre fui medrosa e um pouco porque eu conseguia enxergar por trás da sua estrutura física fina e delicada uma força fogo. Na verdade, o seu semblante firme expressava muita certeza e assustava essa de cá, sempre incerta de tanta coisa. Os meus olhos vagavam para cima...

Ela passou um caderninho para deixar mensagens e escrevi algo completamente abstrato com uma intenção de aproximação. Não sabia porquê, mas queria ser amiga daquela estranha. Acho que talvez eu quisesse aprender a ser forte. A ser altiva e firme como eu a via. Começamos a ser amigas e eu nem me lembro bem da fase inicial. De repente já era super amiga e pronto. O que eu não imaginava antes era que com ela eu aprenderia não exatamente a ser forte, mas simplesmente a gostar das minhas dúvidas. Que com ela eu aprenderia não exatamente a ser firme, mas a gostar de ser lúdica. Não sabia que com ela não iria aprender a ter o controle, mas a gostar de arriscar. Não sabia que com ela eu não iria aprender a ser campeã, mas simplesmente a gostar de jogar. Ou a gostar de ser ridícula para tantos. A gostar de ser completamente gente. Pelos corredores da faculdade saíamos do sério, completamente fora das etiquetas e aprendíamos os maiores jogos de linguagem do universo. Finalmente alguém que falava mais do que eu e sem pedir licença. Alguém que entregava-se ao pranto ou à gargalhada sem vergonha e sem perder a altivez. Alguém que revelava a filosofia como uma brincadeira de criança, me transportando para os meus 10 anos de idade.

Quando eu quis me aproximar daquela chinesa instigante, eu jamais imaginava que existia  um ser humano tão completamente humano. Não sabia que alguém podia ser empatia o tempo todo. Eu não sabia que era possível a tão pura lógica ser mais completamente amor e receptividade do que imposição. A gente aprendeu a compartilhar nossas infinitas teorias sobre o mundo, mas ela me ensinou o desvalor da pura razão perante o poder do corpo. A gente aprendeu a exercitar a sagacidade intelectual, mas ela me ensinou que o amor e energia são mais convincentes. Não consigo explicar tantas coisas que ela me fez saber des-sabendo... Ela me fez descobrir que vale a pena mais sabores e cores do que o familiar, que os sentidos nos trazem mais vida que as teorias, que a natureza traz maiores respostas do que as bibliotecas, que não há vida fora da comunhão e da elaboração criativa... O que eu aprendi com ela foi algo completamente inesperado e maior que o herdado em todos os anos de faculdade: eu aprendi a voar. De alma e de corpo.

Essa chinesa linda que continua me instigando até hoje me fez saber, sobretudo, que a vida dentro da vida não vem de graça: cada segundo é um segundo de resistência ao moinho dos sistemas que nos chegam prontos e absolutos. Ela é simplesmente como flor que brota em pedra. Ela é rara como a beleza e o nome que traz: Lian.  Tem aquela luz de poucos. É por isso que no seu aniversário eu sempre faço, ao meu modo, uma prece. Agradeço ao universo esse belo presente do acaso e me emociono por saber que Lian vaga por aí de chinelos de dedo brotando em pedras e inspirando liberdades. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Pulso

Hoje eu quero perfume doce mas ontem o áspero e refrescante eu queria cabelos até cabelos no chão e de repente mais leves que uma pluma saias longas se foram apenas para voltar de novo meu encanto por pulso na batida quebrada nunca resiste ao charme da melodia da bossa ou do mais óbvio romance eu quase repito a lua de Cecíclia que ora se esconde e ora se esbalda na rua mas não na verdade nem a lua me serve como metáfora são tantas e tantas aqui que 4 fases seria um alento há quem diga que isso é qualidade é preciso mudar caminhos e de lado da rua para se sentir vivo disse o conselheiro por aí mas não esse pulsar é sufocante quando é absoluto mas não ele é mesmo a única vida possível dentro da vida é a pegada de ar mas não mas sim mas não o inédito é o mais sublime mas não supera o sublime do novo no mesmo mas olha essa harmonia disritmica mas olha o Chico mas então quem pode explicar que de todos os sons filosofias cheiros e gostos dialética e absoluto guerra e paz caos e silencio o amor seja o mas não mais sim que existe? Amor é só sim do amor eu quero só o sim com o não amor com tudo dentro é a minha única lua.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pombo-correio de volta à amiga da carta de assalto


É um alento ler uma carta sua assim, no meio de uma quarta-feira, bem no meio de tudo, chegando de assalto. Eu também sempre te escrevo cartas mentalmente e elas ficam ali como um diálogo com você que é quase sempre um outro Eu com quem falo de tudo. Mas, de repente, nem é de tudo, tenho medo de ser muito sem sentido e me pego nesse você falando comigo onde é que está a lógica, afinal, de tudo o que estou dizendo. Eu me disperso tanto, e você me ajuda a perceber o ilógico, e então nem é de tudo que falo. Mas, de repente, eu acabo falando porque você nem é exatamente esse sentido lógico e sim alguma calmaria da alma, porque nem mesmo responde sempre, às vezes só ouve e pronto. Nem chego a escrever essas cartas, porque é tão difícil organizar tudo sem fazer perder exatamente o sentido que tem: o Caos.

Engraçado que dias atrás também falei sobre morte e também foi com a minha mãe e nem se trata de morrer de verdade, mas simplesmente de se descansar disso que agora repete na minha cabeça numa palavra: o caos. E ela se assustou. De fato, não se fala nessas coisas. Aprendamos. Mas tanto caos passa por mim a todo tempo e eu quase sempre me esqueço de não me encabular. Porque sei que tem a coisa do vazio e, afinal, já ouvi mil vezes, de onde esperar algo diferente? Você já não sabe? E ele sempre me dá um soco e eu simplesmente me esqueço que não há descanso e que esse vazio antes de ser calmaria é cheio de choques. Uma agonia, de vazio só um nome enganador. Minha mãe disse: você é feliz. A gente vê que é. E eu pensei: é. Mas tem alguma coisa... Esse cansaço. Cansaço de que? Essa... Essa impossibilidade de quietude... Mas vai ver é isso que você disse e sempre diz tão bem: felicidade com melancolia. Só que acho que me vem mais melancolia porque é com meus pensamentos que fico o dia todo trabalhando. E então dá vontade de sair por aí e simplesmente fazer, porque pensar é melancólico. Mas tem os prazos e exatamente o lado de fora. E nem sei onde começa e termina o caos, porque ele é caos.

Dias atrás eu me peguei exatamente com a sensação da minha criança. Entrei numa sala de balé e fiquei ali, relembrando os passos de quando eu fazia plié e estique. E tentava uma ponta. Mas, sobretudo porque tinha música, o que importava era fazer de conta que o corpo apenas expressava aquela melodia linda de maneira leve. E, que nada. Não tem leveza coisa nenhuma: é pesado levantar a perna e falta fôlego e tem suor e dói tudo. De repente, só mesmo pra quem vê de longe é que tem leveza no balé. Porque tudo na realidade tem que ser assim: duro, concreto, cheio de choques e cansaços. Mas também é mentira que eu dancei. É que dias atrás no Campus da Ufg eu fiquei deitada dentro do carro vendo os prédios iluminados (era noite) e resolvi dançar balé. Porque ser criança é dançar balé. Mas depois de um tempo meu corpo se lembrou. Dançar balé também é pesado.

E eu nem sei bem o que é arte, porque sempre quis saber pra poder ser artista. E daí nem quero mais saber, porque arte não tem que ser isso. Eu danço balé, eu pinto quadros bem coloridos e toco muitos instrumentos. E esse caos acho que basta pra fazer alguma coisa assim, meio bela mesmo que feia, algum (sem)sentido. A arte tem só que... Tem que ter corpo e matéria também. Mas então alguma felicidade melancólica e doidice viram alguma estética quando a gente coloca corpo no meio. Mas, que coisa, a arte tem que poder não ser definição, porque pensar é cansativo e arte é descanso. Eu acho.

Eu também estou com saudade de você e dessas biografias que não acontecem e que se conta. Porque fatos já temos o bastante. Para saturar. E sentidos também. Às vezes penso que é uma maldição essa coisa de fatos e sentidos e pra que isso tudo...? Talvez justamente o que falta, como eu já sei e não admito, é justamente o corpo pra só viver e pronto. E deixar chover, sem melancolia nem nada, só mesmo ver a gota cair e tudo tão assim, dado de graça e em estado de graça. Por isso acho que felicidade tem a ver com calar a boca da alma que tem algo a ver com mexer o corpo e vai ver que esse choque do balé é de fato descanso.

Eu também estou com saudade e espero te ver antes do mundo acabar e, depois que ele acabar, a gente continuar se falando em nossas cartas quase diárias. Daí você me conta como é virar bicho ou a terceira margem do rio. E eu te conto algo sobre Neruda, porque acho que vou conhecer a casa dele e escorregar em algum poema lá.

sábado, 8 de setembro de 2012

Belchior e eu: o delírio das coisas reais



"Eu quero é que esse canto torto, 
feito faca, corte a carne de vocês" 


 Preencher o vazio, negar a falta, reverter o negativo no positivo sempre envolve uma grande dose de transcendência. Ontem eu ouvia Belchior e ele dizia que quando veio do interior para a cidade grande trazia de cabeça a canção do antigo compositor baiano que dizia que tudo é divino, tudo é maravilhoso. Tratava-se da canção de Caetano. Esse divino e maravilhoso é transcendência, um escape do real que Belchior não tem mais interesse. Eu me identifico, porque também trazia comigo o divino e maravilhoso: o ser humano não como repleto do vazio e do negativo, mas o negativo como um momento que logo será revertido, porque no fundo todos somos divinos e maravilhosos. Tratava-se de uma leitura do Marx. De um divino maravilhoso que não tenho mais interesse e troco por uma outra postura, que talvez seja mesmo um outro Marx. De todo modo, é um outro jeito de sonhar.

Belchior repete isso: amar e mudar as coisas me interessa mais, eu não estou interessado em nenhuma teoria. A verdade sempre está firme com quem preenche todos os vazios. A teoria tradicionalmente sai da concretude: ela é essa transcendência de uma eterna possibilidade do divino maravilhoso. Esse divino maravilhoso que condena todo vazio, todo negativo, toda falta como um mero presente cruel e passageiro. A insistência no preenchimento condena eternamente todos os homens do presente. E é sempre uma condenação do outro: os outros são cruéis, negativos e cheios de faltas, mas o ser humano divino e maravilhoso sabe o caminho para tudo ser divino maravilhoso. O eu dotado da transcendência que condena a todos é no fundo um otimista e, porque não dizer, eterno positivista: ainda que sua teoria se coloque como reverso, ela cai no encerramento, no preenchimento do vazio como progresso. O meu outro Marx, o da dialética, mantém esse negativo: o vazio é para ele concreto, o que não nos impede de mudar as coisas. Eu disse ao Freud lacaniano: o insuportável do vazio é que ele é concreto, ele não é teoria. O vazio é real, posso pegar nele, posso senti-lo todos os dias no cotidiano da vida bruta e sem delírios e é por isso que o vazio é dilacerante, e é por isso que tendemos a cair no divino maravilhoso que sempre condena o outro e que dá ao vazio uma negação sempre absoluta, fantasiosa.

“Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso, nada, nada é secreto, nada, nada é misterioso, não”, diz a canção de Belchior. Não existe maravilha, nem segredo e nem mistério: a vida é o que é, não há vazio a ser preenchido, não há um mistério a ser revelado que reverta o negativo. A vida é o dia a dia concreto é o “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha, blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais. Garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro, os humilhados do parque com os seus jornais. Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar, e a solidão das pessoas dessas capitais. A violência da noite, o movimento do tráfego... Cravos, espinhas no rosto”. É esse o concreto do vazio, do negativo: humilhados no parque, trabalho, solidão, as pessoas cinzas e normais com seus cravos e espinhas no rosto. Nada é secreto nem misterioso. Por isso, “Eu não estou interessado em nenhuma teoria em nenhuma fantasia, nem no algo mais, nem em tinta pro meu rosto ou oba oba, ou melodia, pra acompanhar bocejos, sonhos matinais, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais.” Não há nada de divino ou maravilhoso, as teorias são fantasia que buscam esse algo mais, são sonhos matinais daqueles que ainda não acordaram para a presença irrevogável da dureza das coisas reais.

Belchior nos canta essa concretude que diz: o vazio não vai ser preenchido, a salvação do negativo não virá, ele é parte do real. Mas insiste:“Eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco. Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor.” E ele é apenas um cantor que diz a vida, a vida é que está repleta do negativo: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”. Não convém falar sem ferir ninguém: todas as palavras sempre podem machucar, são como navalhas. As palavras de Belchior não tem escolha, a vida em si é cortante e dilacerante:  “não se preocupe, meu amigo com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente, quer dizer, a vida é muito pior”.


Esse Belchior que me fala dessa vida pior, me felicita com comunhão. Eu também não estou mais interessada em nada que resolva, estou mais ligada ao delírio como experiência das coisas reais, das pessoas cinzas normais. E isso nada tem a ver com abandonar os humilhados nos parques com os seus jornais e sim em abandonar a fantasia do preenchimento para a abraçar as mudanças possíveis e engendradas nessa dureza do concreto. “Tudo muda e com toda razão”: a vida concreta está sempre em movimento e, mesmo que nunca se preencha, sempre se transforma. Abandonar as fantasias, as teorias que sempre condenam o presente não é profetizar o terror: “longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia, amar e mudar as coisas me interessa mais”. É simplesmente isso: amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas, sem a fantasia, sem o oba oba de um grande algo mais.

Amar e mudar as coisas é a imagem de dois policiais “cumprindo o seu (maldito)duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida”. Desde uma postura no nosso dia a dia individual, cumprir a dura rotina sem abrir mão do amor e da liberdade é defender a vida, a vida simplesmente,  com toda a sua presença e falta. Não se trata de resolver, amar e mudar as coisas é tudo o que nos resta e tudo que também me interessa.

Longe das profecias extremistas, não estamos nem no bem, nem no mal. É tudo proibido ao mesmo tempo em que é tudo permitido: “até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê”.

Podemos até sacar a arma e atirar em Belchior pela sua aspereza de detonar nossas ilusões. Mas o vazio não é universal, lembra? Sem a repleta maravilha ou a repleta falta, podemos matar as fantasias e podemos matar Belchior ao mesmo tempo em que comparecemos em ambos (negativo e positivo) o tempo todo: Belchior também se compromete a nos oferecer algo de bom mais tarde:

"Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar, mate-me logo à tarde, às três que à noite eu tenho compromisso E não posso faltar por causa de você”.