https://www.youtube.com/watch?v=HN0_mN7fWa8
segunda-feira, 18 de julho de 2016
O que emerge do lago profundo?
O que emerge do lago profundo? As linhas frágeis que costuraram
os tecidos de uma vida. A agulha torta que um dia passeou entre suas poucas
linhas engarranchando tudo com uma desordem despropositada. Os retratos em
papel velho que desbotaram as dores de uma memória confusa. Algumas notas
musicais vazias que sobraram daquela canção mal tocada no violão desafinado.
Salivas que voaram sem cuidado e empestaram o ar de fumaça. Sorrisos que se esqueceram
perdidos na graça de outrem. Aquela dança dos tambores que se queria
interminável. O gato preto que nunca deu azar, mas sumiu em busca de uma comida
mais quente. Os retalhos coloridos que não se descosturavam alegremente. O cansaço das notícias que ainda não
sabem que são velhices. A formiga que boiou n’água antes de carregar sua folha
até a casinha. Todos os anéis de prata tortos e perdidos nas horas correiras.
Coraçõezinhos cor de rosa absolutizantes de uma delicadeza insuportável. Dedos
mal educados que sabiam gargalhar. Temores daquele dia em que a alma pediu para
ser pedra. Rodinhas do patins tímido das pernas gigantes. Mil tesouras sem
corte e sem graça. A queda livre que entrou no estômago. As lágrimas
disfuncionais. Os eternos cachorros que brincavam no quintal das roupas
dependuradas. O tempo vagaroso. O tempo cego. O tempo impaciente. A força vã. A força geradora. A força . As delícias. As delícias.As delícias.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Saudades da minha avó
Tenho saudade daquelas tardes vazias em que o tempo se
suspendia naquela imensidão de sala para tão poucas palavras... A cadeira de
rodas girando no azulejo amarelado daquele chão descombinado com a pintura grotesca
das paredes... Os papagaios velhos que já não conseguiam acompanhar tão bem a
lucidez daquela senhora, cujas rugas tomavam mais o corpo do que o próprio
rosto...
Aqueles olhos de sobrancelhas arqueadas, que resistiam a se
quedar com o tempo, eram o único reflexo da verdadeira imensidão de lucidez que
ela trazia por dentro. Minha avó... minha avó que não era vovozinha. Na minha
tenra infância, os seus biscoitos de queijo quentinhos eram quase mais doces
que a sua voz. Foi na idade adulta que fizemos nossos laços, foi naqueles dias
em que eu compreendia cada vez mais nitidamente o significado da palavra
solidão e me compadecia da tragédia humana dessa triste realidade que um dia há
de açoitar a todos nós de algum modo. Solidão, lava que cobre tudo e nos sorri
seus dentes de chumbo, que fica muito bem na poesia e muito dura na realidade.
Aquelas pequeninas xícaras velhas esmaltadas sobre a bandeja da cozinha,
esperando pelo café amargo que serviria as visitas, iam ficando cada vez mais
sem uso. As cadeiras descombinadas e o sofá feio já não precisavam sair do
lugar para encaixar os filhos e netos que outrora enchiam a casa em noites de
domingo. Os papagaios velhos continuavam ali envelhecendo, cantando pouco e mal
com a rouquidão que o tempo trazia, mal servindo, portanto, para substituir as visitas
cada vez mais escassas. Me lembro quando aquela televisão tão odiada por ela começou
a ser ligada. Primeiro, uma vez por mês. Depois, uma vez por semana. De
repente, minha avó já era capaz de passar por cima de toda a sua ira contra a
televisão e aceitá-la como companhia possível. O amargo ia ficando mais doce,
tão doce que um dia presentificou-se de vez em uma diabetes que não queria mais
partir.
Eu atravessava aquela trilha que levava da minha casa para
esse recanto de minha avó e no meio da trilha, ao cruzar o portãozinho
enferrujado, me sentia atravessar o portal para o universo paralelo. Como
naqueles filmes de fantasia, mas muito mais intenso. Porque os filmes, afinal,
nunca chegam aos pés da imensidão da vida. A fantasia era cheia de remendos em
seus bordados delicados, que deixavam transparecer o quanto de delicadeza pode
haver mesmo na mais dura das vidas. Aqueles paninhos bordados em linhas
coloridas, com riscos de caneta azul nos fundos dos desenhos que ela fazia por
conta própria e que acabava não submetendo-se por conta própria também, cobriam
a geladeira, a banqueta de telefone fora de moda, a mesinha da imagem da santa,
o armário da - tão odiada - TV e a penteadeira recheada de perfumes ressecados
do quarto. Quando eu atravessava aquele portal, o universo particular no qual a
solidão grudava-se como lava em cada pequeno canto, mais parecia um espaço da
conciliação da dor com a paz. A solidão ali, tão espreita, dava tapinhas em
nossas costas. Esfriava os nossos pés. Enchia o ar de silêncio. Mas a gente
gostava de olhar pra ela assim: bem de frente. Ela era encarada nos olhos
abertos e arqueados de minha avó. E nos meus olhos desconfiados. E a gente
devolvia bofetões na cara da solidão. Porque ríamos dos causos felizes e dos
tristes também. Porque o café meio velho e o pão meio duro da latinha era nosso
banquete naqueles poucos momentos em que poderíamos nos alegrar pela
simplicidade de nos termos ali, uma à outra, para não sermos nem ternas, nem
rudes, nem belas, nem feias, nem sagazes e nem bobas.
Podíamos nos alegrar em ver a amargura cortante da vida em
toda a sua crueza refletida uma nos olhos da outra, porque a gente não
precisava fingir felicidade e nem chorar pelas coisas tristes. Precisávamos
apenas deixar o tempo se arrastar o quanto fosse preciso para fazer o seu
trabalho de ir lavando... De ir lavando, lavando e lavando aquelas nossas
ideias tão infestadas da poeira dos sótãos do pensamento. Ela podia insistir
para que eu não risse - pois que era verdade - que o cachorrinho preto que
pegaram da rua pra criar havia morrido de calor. Morrido assim, de repente, com
a língua pra fora, só por sentir muito calor. Morre-se de tudo nessa vida, por
que não de calor, afinal? Ela podia me
explicar que não havia nem mesmo contradição em amar as galinhas do quintal
mais do que todos os animais fofinhos juntos e, de vez em quando, fazer um
cozido de frango caipira. Ela podia me mostrar a sua coleção de chifres de
besouro como muito mais preciosa do que aquela sua caixinha de joias que ela
nunca iria usar. E eu podia entender. E a gente podia ir assim, aos pouquinhos
e do nosso jeitinho, fazendo as tardes decifrarem as contradições da vida. Por isso, vira e mexe eu tenho saudade. Saudade
do lado doce dessa rudeza nua da vida que se revelava tão possivelmente inteira
a cada travessia daquele enferrujado portal.
sábado, 29 de agosto de 2015
Hoje se foi minha avó
Hoje se foi minha avó. Não, não era a vovozinha típica dos
filmes e desenhos. Ela era mais forte do que frágil. Minha vó sabia como
ninguém lidar com as coisas duras da vida. Os longos dias no silêncio da sua
casa, minuto após minuto, hora após hora, apenas com o som do relógio e dos
passarinhos... Ela enfrentou com hombridade a guerra do silêncio dos seus 93 anos
de vida. Guerra pela qual passa os idosos apegados às suas coisas e rotinas com
altivez, mesmo que filhos e netos se façam presentes.
Minha avó criara 11 filhos lavando fralda de pano no tanque e cantando alto “para esquecer os longos dias em que ainda iria esperar para chegar seu homem de suas viagens de caminhão", que fazia na época. De vez em quando, também resolvia tocar sua gaita. E aprendeu a tocar brilhantemente. E eram 11 filhos e 11 mil choros e brigas, brigas das quais ela dizia não tomar partido de nenhum dos lados, “pois não era esse o dever de uma mãe”.
Minha avó criara 11 filhos lavando fralda de pano no tanque e cantando alto “para esquecer os longos dias em que ainda iria esperar para chegar seu homem de suas viagens de caminhão", que fazia na época. De vez em quando, também resolvia tocar sua gaita. E aprendeu a tocar brilhantemente. E eram 11 filhos e 11 mil choros e brigas, brigas das quais ela dizia não tomar partido de nenhum dos lados, “pois não era esse o dever de uma mãe”.
Ela sempre me surpreendia com presentinhos no meio da
semana: bolo de laranja, goiabada, calendário de pano com desenho de corujinha,
guardanapos bordados especialmente para mim com florzinhas coloridas feitas pelas
suas próprias mãos enrugadas e certeiras. E ela discordava de mim dizendo que ela “não era
tão boazinha quanto eu pensava. Na verdade, minha filha ninguém é assim, só
bondade, isso é tudo uma ilusão”. Minha avó me ensinou com toda a sua pessoa
muito do que eu sei da complexidade do ser humano. E a como ter honra diante da
morte. Não só da morte física, mas das pequenas mortes ainda em vida. Lembro como se fosse
hoje da gente numa fila de Banco para fazer sua anual prova de vida do idoso
dizendo “é engraçado... chega uma idade que todo mundo espera tanto que você
morra que é preciso ficar provando que está vivo e muito vivo”e fazia então
questão de dizer de memória, para o funcionário do caixa que a atendia, todos os
números dos seus dados de identidade, telefone, CEP, etc. Lembro-me também de quando
me ligava dizendo que estava com saudades de mim e que “essa velha era custosa porque
não queria morrer tão cedo”.
Minha avó lutou com todas as suas forças por cada segundo de
sua vida. Resistiu a uma entubação e a uma amputação do pé aos 93 anos mesmo depois de quase 15 dias solitária
numa UTI na qual só podia receber 2 entes queridos durante meia hora por dia. E tudo isso num esforço surreal para manter a lucidez que tanto prezava, mas que agora só
vinha em poucos momentos em meio a uma série de devaneios sobre passarinhos
cantando e sobre teias de aranha que eram preciso “ser tiradas dos cantos do
teto daquela casa velha”. A casa velha era o hospital. E quando ela se dava
conta de onde estava, não podia se conformar com os tubos, fios e laços
amarrando as suas mãos. “Espia só, como é que eu estou...”. E eu me lembrei de
outros tempos de quando ela se curava de alguma enfermidade e me contava depois
“só eu sei o que eu passei, minha filha. Ninguém sabe não, só eu que sei”. É, vó... Eu sempre soube que só você que sabia. Em Cem Anos de Solidão Gabriel Garcia Marques já me ensinara essa
lição: nossa dor é completamente solitária, mesmo que tantos saibam e
participem dela. Nesse livro também tinha uma velhinha matriarca que nem a
senhora, que foi ficando cega aos poucos e que ninguém percebeu quando ela
chegara a ficar cega completamente, porque ela optara por viver aquela dor como
de fato sempre é verdadeiramente: uma completa solidão. A cegueira que a
senhora sofria cada vez maior, dia após dia, era uma dor que eu sabia que não
podia aplacar. Bem como seu desespero para manter a lucidez. Bem como a dor de seus
pés, que iam morrendo aos poucos e que lhe deixavam completamente desesperada
por saber que neles poderia estar tudo o mais que lhe fizesse piorar. “Pode
cortar do tanto que for preciso, é pra cortar pra eu viver” você disse,
corajosa. E essa Vida bem pôde saber a cada momento, vó, da imensidão da sua
garra e amor por ela. Guerreira das lutas dos tempos antigos, quando a mulher
tinha muitíssimo pouco espaço nesse mundo, e também dos tempos do silêncio da
vida idosa, quando as maiores batalhas não são apenas biológicas, mas de atribuição
de sentido ao vazio quase que segundo após segundo, você lutou com honra.
E eu aprendi muito com você. Aprendi todos os dias ao atravessar aquele portal no
caminho para sua casa que me transportava para a outra dimensão. Aprendi que cada detalhe é que faz o grande sentido. Tinha o café, o bordado, o biju, o
padre cantor e o gatinho. Tinha os cachorrinhos que a senhora sempre arrumava não
sei onde. E que preferia deixar de lhes batizar “porque todo cachorro que ganha
nome acaba falecendo e nos deixando tristes”. Tinha o cachorrinho que morreu mesmo sem lhe dar um nome simplesmente “porque estava
fazendo muito calor naqueles dias e ele colocou a língua pra fora pra morrer”.
E tinha as galinhas, porque, puxa, nem era mesmo dos cachorrinhos que você gostava. Porque “bicho que
se gosta mesmo, minha filha, é galinha. Das galinhas sim, eu gosto muito”. É
vó... As galinhas deram muitos ovos dias atrás. E o portal que eu atravessava pra sua casa, e que com seus múltiplos sentidos simples tanto me ajudaram a sair de tanto absurdismo da vida, ainda será atravessado muitas vezes com o meu coração.
terça-feira, 19 de maio de 2015
A pedra caiu
Abstrair-se do mundo. Tomar-se de
um sentimento de flutuação. É mais ou menos assim: as pessoas debatem, a água
enche o copo, o dia amanhece e anoitece, a música toca, o cachorro late, os
alunos escrevem, o vento movimenta a planta, a moça canta no rádio, alguém
dirige o carro... E tudo parece um grande baile liquefeito. É como se tudo
pudesse ser visto em perspectiva temporal longínqua. E isso a todo momento. segundo após segundo. Dia
após dia. Semana após semana. Simplesmente não se está ali. A concretude é
presente. Mas essa concretude surge sempre monstruosamente permanente e monstruosamente
passageira... Anos 20, anos 2000, tudo diferente, tudo tão igual. E, daqui a
alguns anos, também. Tudo tão igual, mesmo tão diferente. E em outros lugares
também.... Esse espaço tão grande parece sempre tão pequeno... Essa causa, essa
finalidade, essa luta... Tão importante,tão necessária e, ao mesmo tempo, tão esgotável,
tão melindre, tão rasa, tão nada...
"Peraí, onde é que está aquele
tanto de coisa aqui dentro?" Eu procuro e não encontro. A princípio, parece um
lapso. Depois, dia após dia, ele apenas se engrandece. E então permanece a cada
segundo... Essa flutuação. Essa quebra. Esse despertencimento. Tristeza? Não.
Alienação? Não. Desesperança? Também seria demais. Porque não há bipolaridade.
Há contentamento e também não há. Há engajamento e também não há. Há limites e
também não há. As bipolaridades são insuficientes aqui. De repente,
simplesmente não se está mais lá. E nem em outro lugar também. E tudo funciona
perfeitamente: você acorda, se veste, toma café, destranca a porta, fala coisas
coerentes, escreve, concorda, discorda, fica, vai embora... Mas está do lado de
fora. Pode ser? Pode não ser? Tudo pode e não pode, mesmo que possa e não
possa. Tudo parece tão desnecessariamente sério. Tudo vai dar quase sempre no
mesmo lugar. Esse quase é tão grande, pensa-se. Mas é também tão pequeno...
Fica tudo assim. No lado de fora, mesmo estando de dentro. Esvaziamento sem
querência de preenchimento. Preenchimento no total esvaziamento. Nenhuma
lágrima cai e nenhum sorriso significa.
É verdade que quando tudo parece
escapar pelos dedos, dedos que se desvanecem em meio às coisas como num quadro
de Dalí, permanecem aparecendo algumas luzes: as luzes-pessoas. E então eu lembro-me de novo de quando ouvi Raquel de Queiroz na TV. “Você gosta da vida?”
Perguntaram-lhe. E ela respondeu: “A vida? Não. Não gosto da vida. Eu gosto das
pessoas! Ah, sim, das pessoas eu gosto!”. Ah... Eu também... Acho que é isso
aí. As pessoas... Pessoas que nos permanecem, mesmo que não nos demore. É
verdade... existem todas essas luzes. Nesse estádio de liqui(di)ficação flutuante, em que tudo escorre por dentro do absurdo, há luzes que invadem, atravessam e significam. Não, não tem nada a ver com paixão não. É claro que a pessoa-amor produz os lapsos mais intensos de não flutuação. Produz sobrevivência e além. Mas tem também as luzes da insignificância dos dias. Aquelas que, aqui e ali, invadem sem que se queira o espaço da abstração e fazem um total sentido numa troca, mesmo que breve. É a pessoa simples,
tipo a moça que te deu uma informação com simpatia ou o senhor que se dedicou
tanto para escrever uma linha caprichada no papel.
Imagens de arte bombardeiam a mente. "É isso, a arte. É isso, a arte. É a arte". A arte. Parece um canto de fada – ou
ventos – nos ouvidos. Lembranças então da infância: "tintas são tão lindas,
elas se misturam, elas viram outra cor, a gente pode fazer as cores que quiser
e pode fazer figuras e tudo pode ser sempre assim, tintas e mais tintas". Mas,
puxa, tem a filosofia. "Ah, a filosofia, essa minha amiga amarga. A gente se
estapeia em meio a momentos corriqueiros do cotidiano. A gente se ama e se ri
uma da outra. A filosofia, amada minha... Ela é a culpada! Ela me trouxe até
aqui, não quero ela não, a filosofia não... Mas, como, como sem filosofia?". Correntes que me prendem para me lançar aos voos, te quero como não te quero.
As pessoas... Sim, as pessoas são os pontos de
luz que nos sobrevivem na quebra. "Mas essa quebra é minha demais. E vai até o magma
da Terra. Esse mesmo magma que quebra paredes e lança cinzas nas cidades. Essa
quebra é muito minha. E é líquida. Desse mesmo líquido que corre os espaços e
se comunicam com o universo". A quebra não tem cheiro, nem cor, nem som, nem palavra,
nem nada. E nem é um nada também... "Ah., já sei! É o absurdo de Camus", disse-me aquela amiga
poeta. “Leia o Mito de Sísifo”. “Ah... é?”
Sísifo rola a pedra para cima do
topo, a pedra rola montanha abaixo e ele a rola para cima de novo. Numa
maldição interminável. E a rola e irá rolar sempre, por toda a eternidade.
Perceber a eternidade do rolar. Perceber
que a pedra caiu. E que ela vai cair de novo. Ir lá e busca-la. E leva-la ao
topo de novo. E ela cair de novo. E de novo... "Maldição, essa amiga filosofia!" – "Mas... Nela a felicidade é sublime, li uma vez em Mill". "E é isso mesmo, disse-me outra
vez uma outra amiga". "Não sei. Não sei. Não sei". Consciente da eternidade desse
rolar sem fim, essa pedra se torna tão pesada que se chega a flutuar. Pois... Essa
eternidade das pedras sempre a cair... Acho que essa não é só muito minha, mas de toda a
humanidade.
Então..."Rebelar-se como, Camus?". A pedra, Camus... A pedra é o sentido.
Então..."Rebelar-se como, Camus?". A pedra, Camus... A pedra é o sentido.
sábado, 10 de maio de 2014
Lian, obrigada por cuidar bem de você!
Lian, hoje é seu aniversário e estou aqui pensando em que
buraco você se escondeu dessa vez. Em que pedra subiu ou em que árvore se
dependurou. A única certeza que eu tenho é que você foi celebrar o seu dia do
modo mais precioso para se alimentar o espírito. E fico tão imensamente feliz
de pensar que você está tomando conta de você, tomando conta do jeito que se
deve, de um modo inteiro, de corpo e alma, da maneira que tem direito e com todo
o cuidado necessário.
Houve um tempo em que achei que eu podia cuidar de você, te
proteger de qualquer coisa que viesse lhe fazer mal. Porque muito cedo eu
percebi que aquela menina de traços tão resolutos era, na verdade, o ser humano
mais sensível que eu já havia conhecido. Eu achava que só eu percebia isso. E
algo me fazia crer que só eu poderia sempre te defender de todo o mal. Taí um capítulo digno que faltou em nosso
gibi. Então, vamos lá, eu dizia, não precisa se preocupar, eu sei ser forte e
vou cuidar disso pra você não chorar. Ou então, desatava a te dar broncas: esse
caminho não... Não vai por aí, não vai por aí... Mas, de repente, quando eu me
dava conta, era eu quem estava chorando embasbacada e você é quem estava ali me
defendendo e sendo forte sem derramar uma lágrima. De repente, o mundo dava uma
de suas primeiras cacetadas contra nós – e nem imaginávamos o que ainda viria
pela frente – e era você quem estava cuidando de mim. De
repente, só você conseguia me proteger. E aquela fragilidade foi se revelando pra mim
na sua maior capacidade de reverso. E eu percebia cada vez mais desconfiada e
mais intrigada que a mais imensa sensibilidade e os mais malucos riscos podem
ser as formas mais eficazes de se proteger do mundo. E eu gostei tanto! Gostei
tanto disso! Você se mudou para o Rio e, sim, você sabia se proteger, sobreviver
e viver! E, mais do que isso, você, simplesmente você, assim do jeitinho que
você é, era uma escola para o mundo inteiro.
Com você o óbvio cada vez mais se desfaz de um jeito mais
bonito, criativo e amoroso. E o mundo, que de repente se revelou muito mais
difícil do que eu imaginava, também se mostrou possível de ser muito mais
prenhe de humanismo, de sonho e de beleza do que antes... E tudo isso na medida
em que você, tão pequenina, foi se abrindo mais para ele- tão imenso,
controverso e assustador. Nesse processo, você se tornou mais do que uma amiga,
se tornou uma espécie de porto seguro da minha esperança: se existe uma alma
tão linda como a da Lian, tudo, tudo pode ser diferente. Tudo pode ser
diferente não simplesmente por poder ser mais amor (por favor!), mas por poder
ser mais amor na liberdade de todos os mesquinhos preconceitos, no desejo real
de (re)conhecimento de humanismo nos “estranhos” para além de diferenças de cultura ou de posses
materiais, no retorno à infância de maneira genuinamente entregue ao riso solto
e ao mundo da fantasia, na possibilidade de uma elaboração desinteressada de
arte, na conversa de silêncio sem pressa com a natureza. Com você o mais amor é
muito, muito mais humano: é revirada e quebra de todas as receitas de sobrevivência e vivência sempre que essa quebra seja mais beleza e encantamento.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Tatiana: o amor majestoso
Ela nasceu, digamos assim, como uma revolução. Porque embora
tenha sido planejada, gestou-se de um caos para formar-se em
maravilha. Mas é revolucionária que nasce a Natureza em sua completude: toda razão e lógica explode
em fantásticas reviravoltas de emoção. Só assim transfigura-se deslumbrante em
cores, formas e sentimentos indescritivelmente belos. É nesse todo de
reviravoltas que ela é profunda e abraça o universo como a mais caridosa mãe.
Tentar entendê-la capturando um momento ou uma parte é perder sua grandeza, ou
seja, é perder sua essência: a capacidade de se refazer refazendo a todos para
si e em si. Natureza que é, ela é majestosa. Cheia de segredos. Centelha que chora
em rios, mas renasce em sol. Tormenta que se revira, mas retorna-se em raiz
maternal que protege todos os galhos e folhas das tempestades. Como revolução
que nasceu, revolução é.
A frondosa Natureza é ela toda uma mulher.Tatiana fez-se da relação
de amor entre a mata amazônica e guerrilheiros por um mundo mais justo e bonito. Como
fruto-Natureza, fez filha ao mesmo tempo em que fez-se mãe do mundo inteiro,
herdando assim a revolução de sua raiz: ser ao mesmo tempo o princípio e o
futuro, a semente e a sombra, água e luz que alimenta. Ainda bebê ela fora a nutrição
para os seus pais em amor e reconhecimento de humanidade. Ainda adolescente ela
fora a segunda mãe de suas irmãs cuidando da segurança, carinho e educação.
A
sua essência de um todo-mãe reviravolto é a própria Natureza: não se sabe com razão, mas se
faz por emoção. É por tormentas que ela segue seu fluxo de querer cuidar dos
frágeis seres humanos como se fossem seus próprios filhos. É
por tormentas que ela segue seu fluxo de não conseguir deixar de sentir na pele
o que o outro sente. Afinal, a frondosa Natureza também quer ser filha e é
nesse todo que está sua alegria e dor. E ela faz maravilhas ainda que passando
pelas angústias do parto. Majestosa e misteriosa como natureza-mata-amazônica
também é toda sol, linda, radiante e estonteante após as tempestades. Não poderia deixar de ser esse misto porque é grande como a própria Natureza, traz a dialética do rio revolto que tudo arrasta e do caos que pare uma estrela dançarina. E de um doce cativante a qualquer um que permite-se conhecê-la e simplesmente deixar-se ser por ela. Casa-se Plínio, faz João e Nina, e ainda permanece um oceano de tesouros raros.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Suposições sobre mim
* Tenho espírito
livre
Quase não caibo em mim
Sou bicho de 7 cabeças
Todo tempo é pouco
* De uma vez só
Algum trocado pra dar garantia
Algum veneno antimonotonia
Brincar como criança e amar como uma dança
* Amo os loucos não declarados
Desconfio dos que se dizem pirados
Desejo amor ao ser e não ao ter
Desejo para todos trabalho em tempo curto e diversão na
maior parte do dia
* Venero o tempo.
Há que se ter tempo para exercer a liberdade
Há que se ter justiça para se ter tempo
Há que se ter espelho para exercer a justiça
Há que se ter coragem para não olhar de cima pra baixo ou de
baixo pra cima
* Estereótipos não me atraem
* Ironias não me convencem
* Liberdade é amor ao humano
Odeio a liberdade privada
Odeio a paz que é medo
Odeio o autoritarismo travestido de liberdade
* Quero criar
Sentar na grama e mexer com tinta
Voar com o outro
Ser (não)inteira como uma música
O espaço entre-bolhas
(Texto do baú de 2005, para o projeto "Bolhas", revista eletrônica).
As bolhas,
apesar de serem transparentes, trazem um sistema muito complexo de coisas
trançadas, embaralhadas, as quais formam um todo com alguma uniformidade. Uma
bolha não tem nada de vazio. Na verdade, bolha é exatamente o oposto do que
podemos conceber como vazio. Quando conseguimos gritar em nossos corações uma
palavra de ordem que defina nosso ânimo ou até mesmo quando conseguimos dizer
para alguém uma opinião que temos com muita convicção, estamos fazendo árvore. Quer
dizer, antes deste processo muitos detalhes se multiplicaram e se envolveram um
no outro. Embora na maioria das vezes seja difícil ou simplesmente não aconteça
de compreendermos todo o entrelaçamento, não há dúvidas de que ele existe e
começou pequeno. Ou de algum nada. A
prova disso é justamente a nossa certeza, quer dizer, a nossa condição de
encontrar uma palavra, e até mesmo de formar uma frase, que faça um sentido
muito lógico, ao menos para nós.
As bolhas,
apesar de serem transparentes, trazem um sistema muito complexo de coisas
trançadas, embaralhadas, as quais formam um todo com alguma uniformidade. Uma
bolha não tem nada de vazio. Na verdade, bolha é exatamente o oposto do que
podemos conceber como vazio. Quando conseguimos gritar em nossos corações uma
palavra de ordem que defina nosso ânimo ou até mesmo quando conseguimos dizer
para alguém uma opinião que temos com muita convicção, estamos fazendo árvore. Quer
dizer, antes deste processo muitos detalhes se multiplicaram e se envolveram um
no outro. Embora na maioria das vezes seja difícil ou simplesmente não aconteça
de compreendermos todo o entrelaçamento, não há dúvidas de que ele existe e
começou pequeno. Ou de algum nada. A
prova disso é justamente a nossa certeza, quer dizer, a nossa condição de
encontrar uma palavra, e até mesmo de formar uma frase, que faça um sentido
muito lógico, ao menos para nós.
Fiquei
pensando durante muitos dias sobre algo a dizer que não fosse falar sobre o
clima, os afazeres diários, as surpresas da rotina. Algo assim como um todo, um
sentimento, uma verdade. Algo que se pudesse escrever em um cartaz, em um
outdoor, quer dizer, algo que fizesse sentido ou importância suficiente pra dar
vontade de dizer para outros. Outros não apenas fora de mim, mas completamente
distantes de qualquer idéia daquilo que sou. E não encontrei nada. Mas como
explicar que nada é mesmo nada, que
simplesmente não havia sentido em qualquer palavra ou frase, se nem mesmo acho
possível um nada no sentido mais puro?
Acho que a melhor explicação é dizer isto: quando digo nada não quero dizer sem
sentido, mas sim sem um importante sentido para uma bolha qualquer.
Importante é um sentido que para os outros também é interessante e
compreensível, que possui um todo. Não tenho pretensão de que alguém aceite ou
mesmo compreenda quando eu digo que não encontrava nada com sentido importante
e por isso considerei simplesmente isso ser um nada. Eu sei que isso aconteceu num momento e foi completamente
diferente de tudo o que eu já havia passado nas minhas experiências pessoais. Senti-me
des-pertencida a qualquer bolha. Não pedi “socorro”, mas acho que teve tudo a
ver com aquela música do Arnaldo Antunes em que ele diz que não está sentindo nada.
Percorreu-me o
pensamento de que talvez fossem todas as bolhas vividas anteriormente que
tivessem algo de muito religiosas e que, de repente, fosse simplesmente isso:
eu havia entrado numa bolha em que não há fé cega e nem grito. Mas isso foi
assustador demais pra mim e escapou a qualquer idéia que eu tinha de bolha. Não
posso concordar que exista uma bolha assim, sem fé em coisa alguma e que não
queira nem mesmo querer. Porque penso que uma bolha tem sempre uma força que a
rege como princípio, mesmo que este princípio não seja compreendido.
Escrevo agora
porque este momento passou. E acho que, agora, conseguindo escrever e
concatenar coisas com algum sentido mais unificado, penso que as bolhas não são
grudadas. Bolhas devem ser mesmo como aquelas de sabão que sopramos no ar. E
podem até se grudar às vezes. Adentrarem-se umas nas outras. Mas não é regra
que elas sejam grudadas. As bolhas flutuam em algum espaço que é não-bolha. Ainda que elas fossem
grudadas, se forem mesmo redondas (e acho que são mesmo redondas, pois assim se
movimentam e fluem com mais facilidade, e é assim que as bolhas da vida
funcionam) temos que considerar um espaço entre as bolhas que não é bolha
alguma. Este espaço não-bolha possui
coisas soltas, não sistematizadas. Coisas que fazem sentido apenas quase
encerradas em si mesmas e por isso não se declaram como um sentido, como uma
bolha. Não conseguem de fato se conformarem num sentido maior. É como aquelas
respostas pra perguntas que não respondem às perguntas, mesmo que usem as
mesmas palavras também presentes na pergunta referente.
O espaço entre-bolhas, ou espaço não-bolhas, é apático. Nada solicita e
não assume qualquer não solicitação. Chega a ser quase um recalque, mas não o
é, pois isso seria excede-lo, que dizer, isso já seria “bolha” demais para ele.
É simplesmente um entre-bolhas, lugar
onde não é nada confortável de se estar.
A dança do Bosque Auguste de Saint Hilaire
(Artigo experimental para o Jornal Samambaia - UFG, 2005)
Em maio a barriguda tem flor. E suas folhas vão caindo. Quando for tempo dos frutos amadurecerem, ela já deve estar totalmente desfolhada. Enquanto isso outras árvores nos fazem sombra com suas copas verdinhas e cheias. No Bosque-Saint Hilaire do Campus Samambaia a dança é assim: cheias e despidas, verdes e coloridas, folhas caindo em algum lugar. Folha, desfolha, desfolha, folha: “nunca a queda das folhas é uniforme” – afirma o Professor Doutor José Ângelo Rizzo. Ele explica: “é uma cobertura característica da região centro-oeste e chama-se Floresta Semidecídua Estacional”.
O Bosque
Saint-Hilaire resultou de uma fragmentação ocorrida há muitos anos em uma
região de área verde maior, resultado da urbanização. É um fragmento com
aproximadamente 20 hectares, uma das poucas áreas com vegetação primitiva no
município de Goiânia. Seu nome homenageia o naturalista francês Auguste de
Saint-Hilaire, que esteve em Goiás no início do século XIX e atuou em benefício
da conservação dos recursos naturais desta região. O bosque possui permanente
política de preservação desde a década de 60 e hoje está totalmente integrado,
não degradado. Esses são dados da Unidade de Conservação da Universidade Federal
de Goiás, dirigida pelo Professor Rizzo. As trilhas ecológicas, as mesinhas e
bancos instalados, as placas que trazem o nome científico de várias plantas são
mecanismos administrados pela Unidade para permitir uma interação saudável com
a natureza: “sem prejudicar a estrutura da mata, que deve se manter em processo
de recomposição normal”.
A proteção de
tela que envolve o bosque não impede a circulação das pessoas dentro dele.
Árvores, estudantes, professores, macacos e outros bichos convivem em harmonia.
Os macacos, que se mantiveram nesse fragmento verde, pulam de galhos, carregam
filhotes nas costas, atravessam os caminhos. E quem passa sempre pelo bosque
aprende a lidar com eles. Seja dividindo ou escondendo o lanche. “Uma vez um deles roubou uns biscoitos de
peta que eu estava trazendo da FAV” afirma a estudante de jornalismo Lian Tai. “Já vi eles várias vezes revirando o lixo, até
refrigerante eles tomam”, conta o ex-estudante de filosofia Relton Júnior. Mas
bolachas e refrigerantes não são aconselháveis para a dieta destes diferentes primatas.
De acordo com o Professor Rizzo existe a idéia de se fazer um projeto que
pesquise a situação da população dos macacos no local para a elaboração de
políticas de controle: “sem um predador a população pode crescer muito e não
ter condições de se alimentar”, afirma. Para a Unidade, só depois desse estudo
será possível resolver a insuficiência de alimentação na flora, possivelmente
através de um plantio de árvores frutíferas. Isto sinaliza que as latas de lixo
seletivo, que de acordo com Rizzo foram instaladas para iniciar um
aprimoramento da coleta seletiva, continuarão por algum tempo sendo reviradas
pelos macaquinhos, assim como as latas comuns distribuídas pela UFG.
Pesquisas como
a de levantamento da população dos macacos precisam ter a autorização da
Unidade de Conservação para serem realizados. A coleta de aves para o “Estudo
Integrado para o Conhecimento da Ornitofauna do Estado de Goiás”, por exemplo, só pôde ser feita no Bosque Saint-Hilaire após
aprovação da direção da Unidade. Assim como o projeto “A escola vai ao bosque”,
que permite que as escolas da rede municipal e estadual tragam estudantes para
aulas de educação ambiental na mata.
A conservação do Bosque Auguste de Saint-Hilaire
objetiva a preservação da vegetação primitiva de uma floresta semidecídua
estacional, que é típica da nossa região. Além disso proporciona, é claro, que
os bichos cruzem nossas trilhas e que a dança continue. Pois depois das
Paineiras, tem a floração dos ipês amarelos, roxos, brancos...
Inconstâncias de ontem
(Da série: divagações de adolescência em baú - 2005 - e que jamais se queriam publicados no momento em que foram escritos)
Vou fazer uma linha de fios de cabelos
bem selecionados, pegar uma agulha que caiba na cabeça todos os desejos e irei
tecer as mais belas vestimentas para todos os meus dias! Quebrarei o
inconsciente em pequenos pedaços e os farei virarem argila, a minha matéria
prima para todas as máscaras que ficarão guardadas atrás do meu espelho e que
saltarão sobre mim nas manhãs finitas, mesmas.
Somos
múltiplos em nós. Não se pode dizer “sou” em uma só pessoa. É claro que temos
cada um gostos e valores próprios, mas nada é tão constante. Somos surreais
demais para dizer. Tenho minhas dúvidas se ainda podemos dizer sobre existência
de essência. Aqueles que conhecem alguém podem até dizer: é essencialmente
alguém bom, com opiniões assim, de tal caráter, etc. Mas isso não deixa de ser
o que esse alguém demonstra, aparenta. Ninguém pode conhecer dentro de si ou
dentro dos outros um centro imutável.Somos tudo e nada, todos e ninguém, com
tendências a escolhas e mínimas compreensões.
Eu entendo quando Clarice Lispector diz que cada dia é um dia roubado da morte. E que não se deve procurar entender demais, pois viver ultrapassa todo entendimento. Não se trata de parar de procurar respostas. Mesmo que elas não existam, a busca torna o caminho mais interessante de ser percorrido, pois ele é pensado de formas redondas, quadradas, triangulares, tridimensionais... E viver é fazer sentido. É por isso que a arte sempre nos salva de todas as perdas. O que é esmagado pela civilização ainda pode sair dos fundos de alguma maneira e se exteriorizar nela. E isso constrói uma comunicação até com aqueles que não sabem dizer o que é ou que simplesmente se negam a assumir que existe. Pensamentos presos e escondidos, perguntas e reflexões que se fazem talvez mais em cores e sons do que em palavras dentro das cabeças! As concepções sempre podem girar dentro, mesmo que em movimentos invisíveis.
Eu entendo quando Clarice Lispector diz que cada dia é um dia roubado da morte. E que não se deve procurar entender demais, pois viver ultrapassa todo entendimento. Não se trata de parar de procurar respostas. Mesmo que elas não existam, a busca torna o caminho mais interessante de ser percorrido, pois ele é pensado de formas redondas, quadradas, triangulares, tridimensionais... E viver é fazer sentido. É por isso que a arte sempre nos salva de todas as perdas. O que é esmagado pela civilização ainda pode sair dos fundos de alguma maneira e se exteriorizar nela. E isso constrói uma comunicação até com aqueles que não sabem dizer o que é ou que simplesmente se negam a assumir que existe. Pensamentos presos e escondidos, perguntas e reflexões que se fazem talvez mais em cores e sons do que em palavras dentro das cabeças! As concepções sempre podem girar dentro, mesmo que em movimentos invisíveis.
Encontrar
uma definição para mim e meus sentimentos: esta é a busca mais difícil. Já não
se pode mais confiar em causas definidas. Talvez seja simplesmente uma dor de
cabeça que eu não sinto, mas que me traz temor e tristeza. Talvez jamais
poderei saber exatamente o motivo de minhas insatisfações, tensões, um mal
estar... Devo fazer o exercício de falar, falar e falar como receita a
psicanálise no caso de “sintomas” de um inconsciente que não se deixa conhecer?
Será que o que chamam de essência não seria o inconsciente? Mas... sou uma
construção inacabada de material desconhecido e todos os dias preciso tirar do
espelho o “ser”. Meu ser. O que sou vem de onde? É uma verdade ou uma escolha ?
Como se no menu do dia meu lado escuro e misterioso escolhesse um sentido e me
obrigasse a consumi-lo por longas horas. Se vejo as coisas de uma maneira
inconstante, não é minha culpa. Pelo contrário, sou uma vítima do que teço e
desconheço: eu. Agora estou grudada em um dia novo cheio de dúvidas. O que virá
amanhã?
Ter
certezas sobre mim? Impossível. E pra que? Às vezes me exalto querendo ter
certezas sobre o outro. Um risco mais enorme ainda. Somos cada um as
prolongações de nossas bagagens imanentes e esquecidas e ainda trazemos uma enciclopédia
de signos distintos. Nossas escolhas se misturam com a dos outros. Sinta o
sabor disso, isso é o mais gostoso, veja essa cor, sinta esse cheiro... Me
disseram que o mais gostoso era diferente.
Talvez isso nos resolva, talvez nos detone, talvez misturemos todas as
escolhas... A cada momento tecemos vestimentas diferentes. Minha mistura, a
mistura do outro... E sigo. Vou tecer sempre outras inconstâncias. Minha mais
bela vestimenta deve vir cheia de paixão. Às vezes parece que o que eu mais
desejo é acabar com o mistério. Mas acho
que não acredito em revelação. Quero apenas transgredir.
domingo, 11 de agosto de 2013
Meu pai: gauche na vida
O meu pai é daqueles
que recebeu o anjo torto de Drummond e foi ser gauche na vida. Por trazer uma
voz inconformada por dentro, muito cedo partiu pra luta por um mundo melhor.
Ele estava na Amazônia numa base de guerrilha contra a ditadura militar quando minha
irmã Tati nasceu. Quando veio minha irmã Maíra, ele estava comemorando a Anistia. E, quando eu vim, refundando o Partido Comunista do Brasil.
A sua voz
inconformada buscava se elaborar na militância e nos livros. Na música clássica
e na MPB. Eu cresci ouvindo os lindos discos que ele colocava na vitrola, com a
imagem dele à volta com pilhas de livros e ouvindo o discurso sobre como não
ter uma vida mesquinha e egoísta. Mais do que ouvindo esse discurso,vendo o seu
exemplo. Ele sempre estava disposto a ir pegar as estrelas
do céu não só para nós, suas filhas, mas para todos os que precisassem. Disposto a sair de madrugada para nos buscar nas festinhas adolescentes com
direito a declamação de poesias inteiras no caminho da volta. Sua voz
inconformada nunca conseguia se conter em nos instigar a pensar, a pensar e a
pensar. E foi nos ensinando a pensar que ele corrigiu nossos erros sem nunca nos
levantar a mão.
Foi em diálogos ricos que ele nos mostrou a naturalidade no
contato com a sexualidade na adolescência. A importância de saber compartilhar com
as irmãs o quarto, os objetos pessoais, o sentimentos. A importância de buscar
um mundo em que o viver compartilhado se sobreponha à violência do eu individual
sem limites. Meu pai nos fez saber que a vida de engajamento comunitário,
político, é a mais plena de humanidade Nos fez saber
o princípio socrático de que uma vida sem exame não merece ser vivida, o
princípio timbira. de que a vida é luta e o princípio marxista de que o fim supremo
desta luta não é meramente pessoal, mas sim realizar um humanismo real na sociedade. E assim ele nos fez herdar a
sua voz inconformada.
Em mim essa voz se fez mais forte pela imagem das pilhas de livros e pela sua citação do poema de Castro Alves que sempre vinha nas dedicatórias dos livros que me dava:
Em mim essa voz se fez mais forte pela imagem das pilhas de livros e pela sua citação do poema de Castro Alves que sempre vinha nas dedicatórias dos livros que me dava:
Filhos do século das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul..
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul..
(...)
Oh!
Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
O meu pai gauche na vida é o meu mestre de amar: amar o comum-viver e amar o saber. Hoje, já na minha vida adulta, é o meu precioso amigo em longas
conversas não só de inconformidade, mas também de encantamento.
Obrigada por tudo isso, pai!
Obrigada por tudo isso, pai!
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Maíra: o amor que canta
O Amor andava por aí sorrindo crianças e montando melodias.
Até que um dia pensou: quero me fazer em corpo de mulher. E assim foi. A bebê
nasceu cheia de cabelos e pressa para falar. No terceiro dia já queria esboçar
alguma coisa. Mas, pelo tamanho dos olhos, todos também perceberam: ela também
tinha pressa para enxergar. De tanta intensidade desse Amor em corpo, o mundo cresceu rápido e a atingiu em cheio. Pois
ela era só amor. E o mundo... tinha muito mais do que isso.
A amor-menina quis aproveitar as mais fortes emoções no ser criança: levar o balanço para o mais alto dos céus, falar pelos cotovelos, fazer rir com palhaçadas e histórias de fantasia também os adultos. E essa amor-menina, menina-amor, não parava mais de ter pressa: queria também as fortes emoções de ser logo mulher. Calçava os sapatos largos e pisava nos vestidos compridos passando o dia a ouvir músicas românticas e a chorar como quem já viveu e já se perdeu. “Mamãe, vem ouvir música que chora”, chamava a criança.
A amor-menina quis aproveitar as mais fortes emoções no ser criança: levar o balanço para o mais alto dos céus, falar pelos cotovelos, fazer rir com palhaçadas e histórias de fantasia também os adultos. E essa amor-menina, menina-amor, não parava mais de ter pressa: queria também as fortes emoções de ser logo mulher. Calçava os sapatos largos e pisava nos vestidos compridos passando o dia a ouvir músicas românticas e a chorar como quem já viveu e já se perdeu. “Mamãe, vem ouvir música que chora”, chamava a criança.
Por algum motivo ela deu
pra ouvir música sem parar. Dia, tarde e noite revezava os discos vinil de seus
pais entre Beethoven, Chico, Elis, Bethânia, Gal... E a tal música que chora tocada nas rádios populares. Mal completava 6 anos e
já deu de ser cantora adulta. As pessoas boquiabertas com o seu vozerão não entendiam
como podia ser: era voz e letra de gente grande. Não sabiam, afinal, que era a imensidão do Amor que estava a
atropelar a menina por dentro e a sair sem pedir muita licença àquele corpo de
criança. Não sabiam que o que se expressava em pressa era simplesmente o Amor que vem como o mar: em ondas
intensas e avassaladoras.
É por esse mar que,
mal se fez adolescente, a menina já queria uma paixão de casal e mal se fez
adulta já queria uma paixão de filho. E fez logo três crianças lindas. Pedaços
dela que são, também estão cheias de sentimento e de pressa. Hoje ela já é mesmo uma mulher por inteiro. E, por saber hoje que sua pressa é mar, realiza sua natureza-princípio: passar os dias por aí a sorrir crianças e
montar melodias. Passar os dias a encher de beleza esse mundo. Pois, se soube
muito cedo que ele não é mesmo só Amor, teve também muito cedo a certeza de
quanto o mundo precisa dela, puro Amor que ela é.
Quem a conhece sabe que essa é a verdadeira história da Maíra, que hoje completa 33 anos. Quem a conhece faz hoje festa no coração. Maíra, nós também somos só Amor para você!
....
....
....
"Hj é aniversario do meu , da minha irmã
querida, mãe linda, mulher forte e que eu não sei viver sem estar grudada. Uma
vez ela me disse "que não sabia onde terminava ela e começava eu" e é
exatamente assim. Sempre fizemos tudo na vida juntas. Querida Maíra, feliz
aniversário. Só quero pra sempre te ver feliz. Te amo Tati."
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Ele. Simplesmente, ele.
Ele é aquele que... foi chegando sorrateiro e se instalou feito um posseiro dentro do meu coração... Que nem naquela música do Chico. A gente não tinha muito o que dizer quando se encantou. Eu, com minhas mil palavras sobre política, não conseguia expressar nada do que queria. Só mesmo num abraço longo e demorado acabei me denunciando. Não porque planejei, mas porque não tinha outro jeito. Quando a gente se sentou perto um do outro, eu já sabia. Eu, que não sou nada espiritualista ou mística, simplesmente aceitei que esse amor me chegou como certeza em forma de energia. Eu simplesmente sabia. E isso me pareceu um pouco assustador... Era ele! Era ele e pronto. E mais nada. “E desde então sou e somos... E por amor Serei... Serás...Seremos...”. Que nem naquele poema do Neruda.
Eu poderia dizer que é porque sou completamente louca pelo contraste da sua pela alva com seus fartos cabelos pretos. Ou porque a transparência do mel do seu olhar é de um doce que me preenche de paz. Ou porque seu perfume natural é o mais envolvente do mundo. Ou porque ele é de uma beleza, inteligência e gentileza que, justamente por não se saberem como tais, são da maior beleza, inteligência e gentileza que existem. Como eu não poderia me apaixonar pelo verdadeiro sábio, aquele que tanto sabe do não saber? Talvez me apaixonei porque ele é aquele que não há quem não se encante. Que tem como sagrado, religioso, o respeito à diferença do outro. Que traz o companheirismo de um modo intenso. Que traz a entrega como regra. A capacidade de se jogar por inteiro em tudo aquilo que faz. O carinho que transforma tudo aquilo que toca em algo melhor. Eu poderia ama-lo por tudo isso... E mais...
Mas não. Eu o amo antes de tudo. Eu o amo num justo SIMPLESMENTE. E esse tudo o mais... Esse tudo o mais é o que vem depois e crescendo a cada dia. É o que faz de mim inacreditavelmente mais apaixonada a cada manhã. Se é raro o amor, mais raro ainda é esse tamanho orgulho do amor que se tem. Por alguma razão o Universo achou por bem me presentear com esse amor que não cansa de crescer e de se orgulhar. Eu tenho a sorte de ser aquela que se pega perguntando como é possível acordar todos os dias num sonho. Caminhar com esse sonho de mãos dadas. Rir, passear, cair e levantar com esse sonho. Os anos passam e de repente começo a ter certeza de que é esse sonho é real, não vou acordar. É a realidade. É possível a realidade ser sonho. Ele é esse sonho possível. É possível um ser humano tão lindo se mostrar ainda mais lindo em cada pequeno detalhe. E, o melhor, sem perceber. É possível se achar infinitamente feliz e ainda assim poder ser mais um pouquinho e mais e mais e mais... É possível se apaixonar ainda mais mesmo quando se pensa não ter mais espaço. Com ele isso é possível. É possível sempre mais entrega e companheirismo. Então, o que posso dizer? Muito pouco. Nunca as palavras darão conta dessa magnitude de beleza.
Por isso hoje, que é o dia do aniversário dele, não é o único dia que eu o envolvo com toda a força em meus braços. Hoje é apenas o dia em que eu me preencho de alegria para devolver ao Universo a alegria desse presente que ganhei. E peço para que eu possa ter ainda muitos dias tão maravilhosos ao lado dele. Porque SIMPLESMENTE é ele. É ele: meu amor, minha paixão, minha vida.
Eu poderia dizer que é porque sou completamente louca pelo contraste da sua pela alva com seus fartos cabelos pretos. Ou porque a transparência do mel do seu olhar é de um doce que me preenche de paz. Ou porque seu perfume natural é o mais envolvente do mundo. Ou porque ele é de uma beleza, inteligência e gentileza que, justamente por não se saberem como tais, são da maior beleza, inteligência e gentileza que existem. Como eu não poderia me apaixonar pelo verdadeiro sábio, aquele que tanto sabe do não saber? Talvez me apaixonei porque ele é aquele que não há quem não se encante. Que tem como sagrado, religioso, o respeito à diferença do outro. Que traz o companheirismo de um modo intenso. Que traz a entrega como regra. A capacidade de se jogar por inteiro em tudo aquilo que faz. O carinho que transforma tudo aquilo que toca em algo melhor. Eu poderia ama-lo por tudo isso... E mais...
Mas não. Eu o amo antes de tudo. Eu o amo num justo SIMPLESMENTE. E esse tudo o mais... Esse tudo o mais é o que vem depois e crescendo a cada dia. É o que faz de mim inacreditavelmente mais apaixonada a cada manhã. Se é raro o amor, mais raro ainda é esse tamanho orgulho do amor que se tem. Por alguma razão o Universo achou por bem me presentear com esse amor que não cansa de crescer e de se orgulhar. Eu tenho a sorte de ser aquela que se pega perguntando como é possível acordar todos os dias num sonho. Caminhar com esse sonho de mãos dadas. Rir, passear, cair e levantar com esse sonho. Os anos passam e de repente começo a ter certeza de que é esse sonho é real, não vou acordar. É a realidade. É possível a realidade ser sonho. Ele é esse sonho possível. É possível um ser humano tão lindo se mostrar ainda mais lindo em cada pequeno detalhe. E, o melhor, sem perceber. É possível se achar infinitamente feliz e ainda assim poder ser mais um pouquinho e mais e mais e mais... É possível se apaixonar ainda mais mesmo quando se pensa não ter mais espaço. Com ele isso é possível. É possível sempre mais entrega e companheirismo. Então, o que posso dizer? Muito pouco. Nunca as palavras darão conta dessa magnitude de beleza.
Por isso hoje, que é o dia do aniversário dele, não é o único dia que eu o envolvo com toda a força em meus braços. Hoje é apenas o dia em que eu me preencho de alegria para devolver ao Universo a alegria desse presente que ganhei. E peço para que eu possa ter ainda muitos dias tão maravilhosos ao lado dele. Porque SIMPLESMENTE é ele. É ele: meu amor, minha paixão, minha vida.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Plebiscito sim!
Na verdade, é justamente o contrário. Um plebiscito é lenha
na fogueira das manifestações! E, mais ainda, é o momento das mobilizações
avançarem para além das críticas superficiais à corrupção e se posicionarem concretamente com um projeto de sistema político para o país. Se nós manifestantes
não queremos intervir para alterar o sistema que gera a corrupção, então vamos
guardar nossos cartazes anti-corrupção, porque eles são infantis. Do contrário,
temos que exigir esse plebiscito. O Estado político no
sistema capitalista é uma instituição alienada do povo justamente pelo fato de
ser “privatizado” a cada nova eleição. Vivemos um sistema eleitoral pervertido,
no qual é preciso muita verba pra campanha, para pagar marketeiros, fazer material
gráfico, etc etc. Toda eleição é a mesma história: é o poder econômico quem
manda. É uma disputa de quem tem mais dinheiro. E quem paga as campanhas são
grandes empresários (por exemplo, máfia do transporte coletivo) que depois cobram a fatura interferindo contra as ações
legislativas e executivas que deveriam ser a favor do povo.
Pra romper com isso
é preciso uma reformulação do sistema. E é preciso que seja de baixo pra cima,
com o voto do povo, e por um motivo muito simples: o poder político está sob os
tentáculos desse poder econômico e precisa do aval do povo para romper o que é
necessário romper.
É no plebiscito, e não no referendo, que o povo indica o que deve ser feito antes de se fazer a lei. No referendo o povo pode apenas rejeitar uma lei. No plebiscito o povo indica o que quer mudar e depois o Congresso tem que fazer uma legislação de acordo com o que o povo escolheu. O plebiscito é a forma de consulta popular na qual o povo tem mais poder sobre o Congresso e por isso pode obrigar esse Congresso a uma radicalidade de Reforma Política que jamais será alcançada se for feita por esse próprio Congresso ou por via referendo.
É no plebiscito, e não no referendo, que o povo indica o que deve ser feito antes de se fazer a lei. No referendo o povo pode apenas rejeitar uma lei. No plebiscito o povo indica o que quer mudar e depois o Congresso tem que fazer uma legislação de acordo com o que o povo escolheu. O plebiscito é a forma de consulta popular na qual o povo tem mais poder sobre o Congresso e por isso pode obrigar esse Congresso a uma radicalidade de Reforma Política que jamais será alcançada se for feita por esse próprio Congresso ou por via referendo.
O momento agora é de irmos para as ruas defender a Reforma
Política que queremos ver aprovada NO PLEBISCITO e não de lutar para que eles decidam sozinhos quais devem
ser as medidas de mudança estrutural desse sistema. Tem muita gente de esquerda
aí contra o plebiscito que repete o mesmo argumento da direita: o povo não está
preparado para votar certo. Mas sem a participação do povo via plebiscito essa Reforma Política vai ser enrolação! O pior é ver esse mesmo “povo” comprando esse discurso.
Não seriam contraditórios os manifestantes que chamam este sistema de corrupto e que querem deixar
para esse mesmo sistema o total controle da Reforma Política? Ora, se
o Estado político está alienado do povo e sendo usado em nome do bem privado, ou
bem o povo interfere para tomar esse Estado de volta ou ele continuará o mesmo.
E a arma possível hoje para o povo tomar o Estado de volta é o povo decidir neste plebiscito quais as medidas
para alterar o sistema em suas entranhas. O povo que optar por abrir mão de
intervir nesse sistema está optando por deixar o sistema alterar por ele mesmo,
o que não será possível. Sem o plebiscito as mudanças estruturais necessárias
jamais serão aprovadas!!! Uma Reforma Política Popular vai resolver tudo como uma mágica? Não. Mas sem ela nem saímos do lugar. A população pode votar de modo péssimo no plebiscito? Sim. Mas sem ele, com certeza o processo já está perdido. Por isso precisamos de um plebiscito sim! E precisamos disputar o seu resultado nas ruas!
O argumento do desvio de foco é desonesto por dois motivos
principais. Primeiro porque só é possível combater a corrupção profundamente
se for um combate em sua estrutura, ou seja, por uma Reforma Política POPULAR. Segundo
porque só é possível ganhar mais amplamente as causas em nome da educação,
saúde, direitos humanos, reforma tributária e reforma agrária se atrofiarmos o
máximo que pudermos o poder do sistema econômico sedento de lucro sobre o
sistema político, ou seja, se tivermos uma Reforma Política POPULAR. Terceiro porque só é possível fazer uma Reforma Política POPULAR via plebiscito. Fazer o plebiscito da Reforma Política não só não é tirar o foco como ainda é FOCAR MAIS INTENSAMENTE na essência
de todos problemas.
O argumento do despreparo do povo para um plebiscito é
desonesto também por dois motivos. Por um
lado, advém de uma direita que na verdade não quer uma Reforma Política profunda e sabe que se tiver plebiscito não terá como enrolar o povo. A ideia de um referendo no lugar do plebiscito tem o claro objetivo de enrolar. De acordo com a OAB*, “no plebiscito, o povo é convocado antes da criação do ato legislativo (...) No referendo, ele é convocado posteriormente, após a aprovação de uma lei, por exemplo, pelo Congresso Nacional, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta legislativa (...) Aplicando-se as
definições ao que foi apresentado pelo senador piauiense, no caso do referendo, o processo seria ‘penoso’, ‘doloroso’, ‘espinhoso’ para a sociedade. O Congresso, por exemplo, poderia ter ‘dois trabalhos’. Aprovar uma lei e depois essa mesma lei ser rejeitada pela consulta popular do referendo.” Ou seja, o referendo poderia enrolar o processo e aí sim, ir-se-ia perder o calor das manifestações de rua que ocorrem agora.
Por outro lado, o argumento contra o plebiscito também advém de uma esquerda idealista, que fala tanto em intervenção do povo, mas ao invés de defender a consulta popular e ir para as ruas defender uma Reforma Política radical, instiga a rejeição do povo ao próprio instrumento desta consulta do mesmo modo que a direita tradicional o faz.
lado, advém de uma direita que na verdade não quer uma Reforma Política profunda e sabe que se tiver plebiscito não terá como enrolar o povo. A ideia de um referendo no lugar do plebiscito tem o claro objetivo de enrolar. De acordo com a OAB*, “no plebiscito, o povo é convocado antes da criação do ato legislativo (...) No referendo, ele é convocado posteriormente, após a aprovação de uma lei, por exemplo, pelo Congresso Nacional, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta legislativa (...) Aplicando-se as
definições ao que foi apresentado pelo senador piauiense, no caso do referendo, o processo seria ‘penoso’, ‘doloroso’, ‘espinhoso’ para a sociedade. O Congresso, por exemplo, poderia ter ‘dois trabalhos’. Aprovar uma lei e depois essa mesma lei ser rejeitada pela consulta popular do referendo.” Ou seja, o referendo poderia enrolar o processo e aí sim, ir-se-ia perder o calor das manifestações de rua que ocorrem agora.
Por outro lado, o argumento contra o plebiscito também advém de uma esquerda idealista, que fala tanto em intervenção do povo, mas ao invés de defender a consulta popular e ir para as ruas defender uma Reforma Política radical, instiga a rejeição do povo ao próprio instrumento desta consulta do mesmo modo que a direita tradicional o faz.
Repito: não há como aprovar qualquer mudança estrutural sem
a intervenção do povo. E o plebiscito é essa intervenção hoje. Você teria visto tanta
gente debatendo desarmamento no Brasil se não tivesse existido uma consulta popular sobre o assunto?
Não. Imaginemos então um plebiscito da Reforma Política no calor da luta...
Estamos num momento de encruzilhada das mobilizações populares. O plebiscito é um combustível para as manifestações, um combustível que precisamos para sairmos do debate superficial e forçar para as mudanças estruturais tão necessárias no Brasil.
*Artigo: http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/270925_artigodiferenca_entre_plebiscito_e_referendo.html
Estamos num momento de encruzilhada das mobilizações populares. O plebiscito é um combustível para as manifestações, um combustível que precisamos para sairmos do debate superficial e forçar para as mudanças estruturais tão necessárias no Brasil.
*Artigo: http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/270925_artigodiferenca_entre_plebiscito_e_referendo.html
sábado, 29 de junho de 2013
Manifestos de Junho/13: algumas impressões e esperanças
Algumas impressões políticas pareciam bastante claras a mim
nos últimos tempos.
PRIMEIRA IMPRESSÃO: a de que mídia há algum tempo faz uma
campanha maciça contra a democracia na medida em que não politiza a crítica à
corrupção ao mesmo tempo em que faz dessa crítica o centro dos problemas,
transformando-a numa questão moral, não distinguindo as causas estruturais
tanto da corrupção quanto dos demais problemas. Ou seja, a mídia, “à la CQC”,
há muito tempo simplesmente “arde a
política no fogo do pecado”, como diz PHA. Joga tudo no saco da imoralidade
pessoal para assim deixar oculta a causa da corrupção (que, acreditem, não está
no fato de "uns estarem com Deus e outros com o Diabo"!) e deixarem indistintos os
projetos políticos quanto às questões estruturais que prejudicam o país. Quando
digo “há muito tempo” considero que desde o caso do Collor isso acontece, mas
que nos governos Lula/Dilma se agravou, dado que a direita via mídia e
judiciário encontrou no mensalão um modo de detonar o PT, abafando o mensalão
do PSDB e sendo constante e firme em seu
projeto de construir a imagem do PT não como corrupto e sim como “governo mais
corrupto da história” – um modo eficaz de dizer que as diferenças dos projetos
no que tange às questões sociais são
praticamente nulas. (A despeito do Brasil no governo Lula/Dilma ter sido o único
país além da China que, de acordo com a ONU, diminuiu a mortabilidade por Fome, leia-se
Miséria - em 40%. Seria uma diferença
pouca???).
SEGUNDA IMPRESSÃO: a de que o governo precisava avançar para
além dos grandes feitos no que tange a tirar o país da miserabilidade e partir
para as reformas estruturais que todos da esquerda sonham há tanto tempo.
TERCEIRA IMPRESSÃO: a de que tal avanço estrutural estava
constantemente e irritantemente sendo barrado em nome de um tal PIB para não
deixar o país cair numa tal crise do capitalismo internacional que traz
justamente desemprego e miséria.
QUARTA IMPRESSÃO: a de que tudo isso teria que ser pincelado
por mim lendo artigos aqui e ali, ou seja, de que o governo não tem um canal de
comunicação que nos permita entender o que está fazendo e porque está fazendo.
QUINTA IMPRESSÃO: a de que isso tudo estava irritando
bastante não somente a mim, mas a tantos e tantos movimentos sociais, ou seja,
o governo também estava pecando na falta de diálogo direto, não mediado.
Nos primeiros dias em que vi o povo nas ruas me felicitei, tal
como muitos colegas que pensavam parecido comigo: era o momento da esquerda
cobrar da Dilma uma respostas às nossas expectativas para além dos avanços (enormes!!)
na redução da miserabilidade. Exigir a redução das tarifas de transporte nos
permitia exigir um posicionamento combativo contra o domínio do poder econômico
nas tantas e tantas áreas estruturais do país. Era a ponta de lança em nome de
uma guinada à esquerda. As primeiras manifestações de fato pareciam indicar
isso. As esperanças renasciam.
De repente, entretanto, a coisa ficou obscura. Bastante
simbólica foi a mudança de posicionamento de um dos jornalistas mais
reacionários do Brasil, Arnaldo Jabor. Da crítica aos manifestantes ele então resolveu
tentar pautar o movimento dizendo algo do tipo: achei que vocês fossem idiotas combatendo
a máfia do transporte por R$0,20 centavos (ou seja achei que fossem idiotas
combatendo o domínio do poder econômico nas questões sociais) Mas, que nada! Percebi
que vocês são inteligentes: querem é combater apenas corrupção e ”sabem” que a corrupção
é simplesmente o governo – e não a estrutura (ou seja, percebi que se vocês se
voltarem só para a bandeira anti-corrupção e anti-governo os conservadores/capitalistas
podem ganhar muito com isso!).
De repente, então, aqueles que queriam combater o domínio do
poder econômico e exigir da Dilma mudanças estruturais à esquerda se viram ao
lado de bandeiras conservadoras. Hein? Foi então que me lembrei de que havia esquecido
da PRIMEIRA IMPRESSÃO: da campanha anti-corrupção feita de modo superficial
pela mídia e que exaltava o poder Judiciário – aquele que até hoje não julgou o
mensalão do PSDB e que tal como qualquer poder político do Estado capitalista é
corrupto – como o poder salvador da pátria, sob a figura de um indivíduo moral
Joaquim Barbosa.
O susto foi grande. Cogitei sair das ruas. Se for pra
retroceder, melhor tomar cuidado. E então comecei a observar melhor. Na verdade, apesar da mudança do Jabor ter sido
também uma mudança da Globo em geral, o movimento não era completamente
conservador. Pés no chão: não é só um movimento exigindo uma guinada à
esquerda. E mais pés no chão: não é só um movimento conservador da direita. Não
é um movimento só de pacíficos e nem só de vândalos. Não é um movimento só de
pacíficos anti-vândalos, tem também só de pacíficos pró-vândalos. É um misto. É
um movimento que se volta contra os símbolos do capitalismo, é um movimento que
tem bandeiras conservadoras, é um movimento que detona a Globo/mídia, é um
movimento que quer aparecer na Globo/mídia, é um movimento que quer a guinada à
esquerda, é um movimento que quer a guinada à direita, é um movimento de
apartidários anarquistas, é um movimento de apartidários fascistas, é um
movimento de apartidários que nem sabem o que querem no lugar dos partidos e
julgam não terem a responsabilidade de responder a essa pergunta quando
combatem os partidos. É um movimento que se mascara como Anonymous que parece
mais distante do Anonymous internacional que qualquer desmascarado. É um
movimento cara limpa que se recusa fazer aliança com Anonymous. É um movimento
de coxinhas. É um movimento de socialistas. É um movimento por mudanças.
Pés no chão é um “balaio de gatos”. Pés no chão: sair das
ruas é a pior opção.
No meio desse balaio, começam a sair pautas de
reivindicações. E minha impressão é péssima. Com tanta coisa urgente e
necessária, as pautas se mantêm no nível da moral superficial e não da estrutura
política, não da mudança profunda, nem mesmo quando trata a corrupção. E de
repente a coisa começa a virar. A Dilma anuncia, apresenta e faz aprovar os
royalties do petróleo para a educação e saúde. É aprovada a lei que torna a corrupção
crime hediondo. E, principal, Dilma vai a fundo no que de fato pode mudar a
estrutura da corrupção: é preciso fazer
uma Reforma Política!!!
E agora estamos no ponto em que separamos o joio do trigo.
Como não poderia deixar de ser, a Globo
faz campanha indireta contra a Reforma Política. Depois de estimular os
movimentos sob a bandeira “à la Arnaldo Jabour”, agora a Globo considera que o
povo é incapaz de participar do processo: “Fazer Reforma Política é perigoso!!!”
Leia-se: acabar com a possibilidade dos acordos econômicos eleitoreiros e
mafiosos que permite os firmes tentáculos do capital sobre os políticos é
perigoso! Os conservadores gritam na Globo através da voz dos seus cientistas
políticos cheios de medo. Daqui a pouco
chamam a Regina Duarte para nos lembrar do perigo!!!
PHA traz um temor
contrário ao dos conservadores e que se assemelha ao meu: e se a Reforma
Política for de novo pra gaveta??? Pela falta de comunicação efetiva, pode
ser que muitos caiam nessa conversa da
direita-Regina Duarte. E então talvez não consigamos fazer essa Reforma
Política. E então talvez ficaremos a vida inteira tendo que ouvir do povo cheio
desse medo global continuar gritando contra corrupção por uma eternidade e a
Globo cheia de poder falar contra a corrupção numa cara lavada que faz inveja a
qualquer máscara do Anonymous. É que, diz PHA, “Desde 1994, a
Globo controla 80% de toda a verba da televisão aberta. Nenhuma
Democracia do mundo permitiria que a lei que regula a rádio-difusão não se
atualizasse desde 1963. Em 1994, ela tinha 80% da audiência. Hoje,
tem 45% da audiência. Mas, não faz diferença. Os 80% só os mesmos
e o bolo da grana aumentou. E agora ?"
E agora? E agora que sigo com esperanças!!! Porque esse movimento nas ruas, como eu disse, não se resume a abraçar as causas do Jabor, mas também o escorraça. É um balaio de gatos e tudo pode acontecer. Não é que eu tenha ilusões de que a Reforma Política não possa dar errado, ser tomada pela direita no meio do caminho. Mas penso que o importante é, pelo amor de Deus (!), que ela leve de uma vez por todas um solavanco para começar!! E então disputemos democraticamente o seu tom! Se não for agora, não será nunca!
E espero que o governo não precise que peçamos que se faça imediatamente a democratização da mídia!!
Como sou cheia de esperança, já parto para a campanha pela outra pauta urgente depois que garantirmos a Reforma Política. "Próxima, por favor... Reforma Agrária!”
E agora? E agora que sigo com esperanças!!! Porque esse movimento nas ruas, como eu disse, não se resume a abraçar as causas do Jabor, mas também o escorraça. É um balaio de gatos e tudo pode acontecer. Não é que eu tenha ilusões de que a Reforma Política não possa dar errado, ser tomada pela direita no meio do caminho. Mas penso que o importante é, pelo amor de Deus (!), que ela leve de uma vez por todas um solavanco para começar!! E então disputemos democraticamente o seu tom! Se não for agora, não será nunca!
E espero que o governo não precise que peçamos que se faça imediatamente a democratização da mídia!!
Como sou cheia de esperança, já parto para a campanha pela outra pauta urgente depois que garantirmos a Reforma Política. "Próxima, por favor... Reforma Agrária!”
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Vamos voltar às ruas por Reforma Política e Educação!!
Do balaio de reivindicações catalisadas em torno da
reivindicação da diminuição da tarifa do transporte, as que eu sempre considero
principais são as que buscam atacar as causas ao invés de atacar simplesmente os
efeitos. Penso que pra mudar realmente as coisas nesse país, não podemos ficar
fazendo leis que se focam nas consequências e sim ir mais a fundo, entendendo as
causas. Por exemplo: é importante criar leis punitivas a crimes? Sim. Mas mais
importante ainda é alterar a situação concreta que induz o indivíduo ao crime. Se
somos contra a corrupção devemos nos perguntar: o que causa a corrupção? Se
somos contra o conflito de terras nos quais morrem tantos pequenos agricultores
e índios, devemos nos perguntar: o que causam os conflitos de terra? E por aí
vai. E devemos buscar as perguntas na estrutura e não simplesmente na falta de leis.
Leis temos aos montes. Por que elas não são suficientes? Porque é preciso focar
nas causas.
Muito mais importante do que leis permitam a
condenação dos corruptos (como a queda da PEC 37 e a lei que torna a corrupção crime
hediondo), é a Reforma Política. É esta reforma e não outras leis quaisquer que
deve alterar a estrutura que gera a corrupção política desde o financiamento privado
de campanhas eleitorais. A Reforma Política é muito mais importante contra a
corrupção do que qualquer lei punitiva, porque ataca as causas ao invés de se
focar nos efeitos.
Neste sentido, as medidas que a presidenta Dilma anunciou
através das reivindicações foram bem melhores que aqueles 5 causas feitas em
nome do movimento. Dilma destacou:
- Reforma Política (deve alterar o sistema de corrupção onde ele começa, na semente, na campanha eleitoral)
- 100% dos royalts do Pré-Sal para a Educação (educação é a
base de tudo! A falta de qualidade na educação é causa de inúmeros males desse
país!)
- Lei de Acesso à Informação (a transparência ao uso do
dinheiro público, nos permitindo atuar também inibindo a corrupção na sua base:
o ocultamento)
- Democratização dos meios de comunicação (para reverter a
histórica máfia de comunicação no país e colocar o povo no poder da mídia!)
- Saúde: trazer mais médicos do exterior (ficou a desejar)
Para mim faltou sobretudo mais um essencial:
- Reforma Agrária (para democratizar o acesso à terra e
demarcar urgentemente as terras indígenas)
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Flor que brota em pedra
Foi mais ou menos assim… Eram os meus primeiros dias de
faculdade. Não me lembro bem em qual deles, eu achei aquela chinesa instigante. Ela me deu medo. Um
pouco porque sempre fui medrosa e um pouco porque eu conseguia enxergar por
trás da sua estrutura física fina e delicada uma força fogo. Na verdade, o seu
semblante firme expressava muita certeza e assustava essa de cá, sempre incerta
de tanta coisa. Os meus olhos vagavam para cima...
Ela passou um caderninho para deixar mensagens e escrevi
algo completamente abstrato com uma intenção de aproximação. Não sabia porquê,
mas queria ser amiga daquela estranha. Acho que talvez eu quisesse aprender a
ser forte. A ser altiva e firme como eu a via. Começamos a ser amigas e eu nem me lembro bem da fase inicial. De repente já era super amiga e pronto. O que eu não imaginava antes era
que com ela eu aprenderia não exatamente a ser forte, mas simplesmente a gostar
das minhas dúvidas. Que com ela eu aprenderia não exatamente a ser firme, mas a
gostar de ser lúdica. Não sabia que com ela não iria aprender a ter o controle,
mas a gostar de arriscar. Não sabia que com ela eu não iria aprender a ser
campeã, mas simplesmente a gostar de jogar. Ou a gostar de ser ridícula para
tantos. A gostar de ser completamente gente. Pelos corredores da faculdade
saíamos do sério, completamente fora das etiquetas e aprendíamos os maiores
jogos de linguagem do universo. Finalmente alguém que falava mais do que eu e sem
pedir licença. Alguém que entregava-se ao pranto ou à gargalhada sem vergonha e
sem perder a altivez. Alguém que revelava a filosofia como uma brincadeira de
criança, me transportando para os meus 10 anos de idade.
Quando eu quis me aproximar daquela chinesa instigante, eu
jamais imaginava que existia um ser
humano tão completamente humano. Não sabia que alguém podia ser empatia o tempo todo.
Eu não sabia que era possível a tão pura lógica ser mais completamente amor e receptividade
do que imposição. A gente aprendeu a compartilhar nossas infinitas teorias
sobre o mundo, mas ela me ensinou o desvalor da pura razão perante o poder do
corpo. A gente aprendeu a exercitar a sagacidade intelectual, mas ela me
ensinou que o amor e energia são mais convincentes. Não consigo explicar tantas
coisas que ela me fez saber des-sabendo... Ela me fez descobrir que vale a pena
mais sabores e cores do que o familiar, que os sentidos nos trazem mais vida
que as teorias, que a natureza traz maiores respostas do que as bibliotecas, que
não há vida fora da comunhão e da elaboração criativa... O que eu aprendi com
ela foi algo completamente inesperado e maior que o herdado em todos os anos de faculdade:
eu aprendi a voar. De alma e de corpo.
Essa chinesa linda que continua me instigando até hoje me
fez saber, sobretudo, que a vida dentro da vida não vem de graça: cada segundo
é um segundo de resistência ao moinho dos sistemas que nos chegam prontos e absolutos.
Ela é simplesmente como flor que brota em pedra. Ela é rara como a
beleza e o nome que traz: Lian. Tem
aquela luz de poucos. É por isso que no seu aniversário eu sempre faço, ao meu
modo, uma prece. Agradeço ao universo esse belo presente do acaso e me emociono
por saber que Lian vaga por aí de chinelos de dedo brotando em pedras e
inspirando liberdades.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Pulso
Hoje eu quero perfume doce mas ontem o áspero e refrescante eu queria cabelos até cabelos no chão e de repente mais leves que uma pluma saias longas se foram apenas para voltar de novo meu encanto por pulso na batida quebrada nunca resiste ao charme da melodia da bossa ou do mais óbvio romance eu quase repito a lua de Cecíclia que ora se esconde e ora se esbalda na rua mas não na verdade nem a lua me serve como metáfora são tantas e tantas aqui que 4 fases seria um alento há quem diga que isso é qualidade é preciso mudar caminhos e de lado da rua para se sentir vivo disse o conselheiro por aí mas não esse pulsar é sufocante quando é absoluto mas não ele é mesmo a única vida possível dentro da vida é a pegada de ar mas não mas sim mas não o inédito é o mais sublime mas não supera o sublime do novo no mesmo mas olha essa harmonia disritmica mas olha o Chico mas então quem pode explicar que de todos os sons filosofias cheiros e gostos dialética e absoluto guerra e paz caos e silencio o amor seja o mas não mais sim que existe? Amor é só sim do amor eu quero só o sim com o não amor com tudo dentro é a minha única lua.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Pombo-correio de volta à amiga da carta de assalto
É um alento ler uma carta sua assim, no meio de uma
quarta-feira, bem no meio de tudo, chegando de assalto. Eu também sempre te
escrevo cartas mentalmente e elas ficam ali como um diálogo com você que é
quase sempre um outro Eu com quem falo de tudo. Mas, de repente, nem é de tudo,
tenho medo de ser muito sem sentido e me pego nesse você falando comigo onde é
que está a lógica, afinal, de tudo o que estou dizendo. Eu me disperso tanto, e
você me ajuda a perceber o ilógico, e então nem é de tudo que falo. Mas, de
repente, eu acabo falando porque você nem é exatamente esse sentido lógico e sim
alguma calmaria da alma, porque nem mesmo responde sempre, às vezes só ouve e
pronto. Nem chego a escrever essas cartas, porque é tão difícil organizar tudo
sem fazer perder exatamente o sentido que tem: o Caos.
Engraçado que dias atrás também falei sobre morte e também
foi com a minha mãe e nem se trata de morrer de verdade, mas simplesmente de se
descansar disso que agora repete na minha cabeça numa palavra: o caos. E ela se
assustou. De fato, não se fala nessas coisas. Aprendamos. Mas tanto caos passa
por mim a todo tempo e eu quase sempre me esqueço de não me encabular. Porque sei
que tem a coisa do vazio e, afinal, já ouvi mil vezes, de onde esperar algo
diferente? Você já não sabe? E ele sempre me dá um soco e eu simplesmente me
esqueço que não há descanso e que esse vazio antes de ser calmaria é cheio de
choques. Uma agonia, de vazio só um nome enganador. Minha mãe disse: você é
feliz. A gente vê que é. E eu pensei: é. Mas tem alguma coisa... Esse cansaço.
Cansaço de que? Essa... Essa impossibilidade de quietude... Mas vai ver é isso
que você disse e sempre diz tão bem: felicidade com melancolia. Só que acho que
me vem mais melancolia porque é com meus pensamentos que fico o dia todo
trabalhando. E então dá vontade de sair por aí e simplesmente fazer, porque
pensar é melancólico. Mas tem os prazos e exatamente o lado de fora. E nem sei
onde começa e termina o caos, porque ele é caos.
Dias atrás eu me peguei exatamente com a sensação da minha criança.
Entrei numa sala de balé e fiquei ali, relembrando os passos de quando eu fazia
plié e estique. E tentava uma ponta.
Mas, sobretudo porque tinha música, o que importava era fazer de conta que o
corpo apenas expressava aquela melodia linda de maneira leve. E, que nada. Não
tem leveza coisa nenhuma: é pesado levantar a perna e falta fôlego e tem suor e
dói tudo. De repente, só mesmo pra quem vê de longe é que tem leveza no balé.
Porque tudo na realidade tem que ser assim: duro, concreto, cheio de choques e
cansaços. Mas também é mentira que eu dancei. É que dias atrás no Campus da Ufg
eu fiquei deitada dentro do carro vendo os prédios iluminados (era noite) e resolvi
dançar balé. Porque ser criança é dançar balé. Mas depois de um tempo meu corpo
se lembrou. Dançar balé também é pesado.
E eu nem sei bem o que é arte, porque sempre quis saber pra
poder ser artista. E daí nem quero mais saber, porque arte não tem que ser
isso. Eu danço balé, eu pinto quadros bem coloridos e toco muitos instrumentos.
E esse caos acho que basta pra fazer alguma coisa assim, meio bela mesmo que
feia, algum (sem)sentido. A arte tem só que... Tem que ter corpo e matéria
também. Mas então alguma felicidade melancólica e doidice viram alguma estética
quando a gente coloca corpo no meio. Mas, que coisa, a arte tem que poder não
ser definição, porque pensar é cansativo e arte é descanso. Eu acho.
Eu também estou com saudade de você e dessas biografias que
não acontecem e que se conta. Porque fatos já temos o bastante. Para saturar. E
sentidos também. Às vezes penso que é uma maldição essa coisa de fatos e
sentidos e pra que isso tudo...? Talvez justamente o que falta, como eu já sei
e não admito, é justamente o corpo pra só viver e pronto. E deixar chover, sem
melancolia nem nada, só mesmo ver a gota cair e tudo tão assim, dado de graça e
em estado de graça. Por isso acho que felicidade tem a ver com calar a boca da
alma que tem algo a ver com mexer o corpo e vai ver que esse choque do balé é
de fato descanso.
Eu também estou com saudade e espero te ver antes do mundo
acabar e, depois que ele acabar, a gente continuar se falando em nossas cartas
quase diárias. Daí você me conta como é virar bicho ou a terceira margem do rio.
E eu te conto algo sobre Neruda, porque acho que vou conhecer a casa dele e escorregar
em algum poema lá.
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